quinta-feira, 29 de março de 2012

A Publicidade Brasileira e a Desumanização

Quem assistiu, nos últimos dias, ao novo comercial da Peugeot, pode até ter dado algumas risadas, só não deu foi conta da gravidade da proposta incutida naquela simulação. Apenas para recordar: O suposto gerente de uma loja de automóveis solicita que o estagiário abra a porta, onde, do lado de fora, uma multidão aguarda para, a seguir, entrar como bois desgarrados passando por cima do estagiário e em seguida, o gerente reforça a outro colega: “Estagiário...” Ou seja, para situações assim, temos os estagiários, é pra isso que eles servem!
É óbvio que, não se trata de uma mediocridade só dos profissionais publicitários (que, diga-se de passagem, no Brasil, a publicidade e suas propostas são deprimentes, me perdoem os profissionais da área, e sei que existem as raríssimas exceções que merecem respeito e que salvam a categoria), mas trata-se também de que os profissionais estão apenas reproduzindo para um público maior, a mentalidade vigente de uma nação, onde a figura de um estagiário representa, justamente, aquele indivíduo que existe para ser explorado, fazer trabalhos que ninguém se presta a fazer e agir como uma verdadeira mucama. Essa cultura vem sendo reforçada nos últimos vinte anos, aproximadamente, principalmente dentro das corporações americanas e se acentua conforme a “América vai descendo”... E isso é ainda mais comum em ambientes empresariais, com objetivos mais técnicos e mercantis. Digo isso com propriedade, pois apesar de ter hoje, um pouco de experiência atuando como revisora de textos no mercado editorial e estar engatinhando na área da educação e idiomas, tenho vasta experiência nos setores administrativos de empresas de pequeno, médio e grande porte, onde, por muitas vezes, vi cenas similares às do comercial serem reproduzidas.
É muito entristecedor perceber que os telespectadores brasileiros assistem às coisas como, definitivamente, EXPECTADORES. Não questionam nada que lhes enfiam “goela abaixo”. Não somos educados no Brasil para percebermos a ideologia por trás de uma propaganda, não somos instigados, desde cedo, a desenvolvermos o pensamento crítico sobre o mundo que nos cerca. E daí, assistimos a coisas como essas e ainda concordamos, damos gargalhadas e tratamos de reproduzir esses comportamentos por não possuirmos padrões éticos pautados numa “autonomia moral”[1] que busca seus princípios do agir na sociedade com base nas reflexões acerca da realidade e voltadas para a promoção humana coletiva. O estagiário que recebe o trote hoje, é o funcionário que passará o trote amanhã e assim caminhamos.
Algumas coisas são boas de aprender com irmãos de outras culturas. Em países como a Suécia e Alemanha, por exemplo, a figura do estagiário é de suma importância para o desenvolvimento do país. Seus tutores tem o cuidado de enxergar neles o talento em potencial que poderá dar continuidade ao progresso da nação e ao seu desenvolvimento intelectual. Até mesmo, no Japão, onde a carga horária é intensa até para estagiários, existem programas governamentais vinculados a “ministérios” de cultura e educação de forma a estimular a maior interação possível desses aprendizes com suas escolhas profissionais. E na Alemanha, dependendo do programa de estágio, os estudantes, se forem dos mais empenhados e interessados, podem também submeter textos à instituição de ensino, como fontes de pesquisa, baseados na observação desses ambientes profissionais e em suas experiências adquiridas. Eu acrescentaria aqui, numa ousadia que me é particular, que é válido lembrar de uma regra preciosa na ordem monástica beneditina, onde São Bento diz que, na dúvida, quando todos os outros monges mais experientes não tiverem opiniões ou posições para determinados assuntos, escutem o mais jovem noviço.
Estagiários podem servir o café? Podem! Podem abrir e fechar a porta? Podem! Podem limpar o chão? Podem! E devem tudo isso fazer! Mas devem fazer orientados por um mestre, no sentido mais nobre da palavra, para que aprendam o valor de cada trabalho, até porque, para nosso pleno desenvolvimento, precisamos exercitar várias áreas do cérebro que diversos tipos de tarefas nos podem ajudar. Ter este “olhar de cego que vê além” é que possibilitará o amadurecimento profissional e o respeito pela pluralidade de talentos, todos necessários. E aí, eu acrescento que orientar estagiários também é tarefa nobre e poucos a fazem com excelência e sabedoria.
Provavelmente, serei criticada por avaliar sempre negativamente o pensamento massivo brasileiro, por nunca enaltecer nada na minha pátria. Se isso for considerado falta de patriotismo, então não sou patriota. Se eu tiver que fingir que está tudo bem em meu país e que nada há que se fazer para melhorá-lo, e que expressar opiniões a respeito da alienação coletiva é um erro, então, não sou patriota mesmo. Nesse caso, terei que compactuar com o pensamento muriliano, afinal quem não se lembra desses versos?

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família tem por testemunha a Gioconda. (trecho de poesia de Murilo Mendes)



Obs.: Dedico esse texto à professora Andrea Santos, que sabe orientar como ninguém suas estagiárias e com quem tive o prazer de aprender muitas coisas.


[1] O termo “Autonomia Moral” é utilizado pela pesquisadora educacional e psicopedagoga Telma Vinha em seus textos sobre uma construção coletiva das ações morais pautadas nos princípios éticos e que devem ser do conhecimento de todos os indivíduos para que não reproduzam comportamentos baseados em códigos de conduta em que desconheçam seu real sentido.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Prática Pedagógica Informal Oriental

por Giselle Lourenço
Às vezes, imersa que sou no estudo da cultura e filosofia orientais, acabo registrando algum ocorrido nos vagões de minha mente cheia de brumas.
Hoje, queria contar sobre a experiência de um renomado filósofo alemão (Eugen Herrigel) que, como eu, interessou-se muito cedo pela filosofia do Oriente e após ser nomeado professor de História da Filosofia na Universidade de Tohoku, no Japão, mudou-se para lá com a esposa e concomitantemente ao o trabalho de docente em Filosofia, empreende uma busca espiritual calcada no misticismo oriental aliada à prática de uma das artes mais “inúteis” que existe: a arte do arqueiro, o tiro com arco e flecha, muito praticada no Japão por mestres Zen-budistas.
Seu mestre era ninguém menos que Kenzo Awa, um dos maiores mestres nessa modalidade que não sei se podemos chamar de esporte; e arte também é uma definição que limitaria seu entendimento considerando-se o que o Ocidente relaciona à arte. Talvez, para alguns amantes das artes, a palavra signifique um caminho espiritual para a iluminação, e se assim for, então estará entendido também o sentido de arte aplicada ao arqueiro Zen.
O que chama a atenção é que Eugen conta que por um longo tempo, não aprendera a respiração correta para a prática da envergadura e tensão do arco, motivo pelo qual ele empregava tamanha força para manter o arco envergado de forma a “conter o mundo” – uma evergadura muito intensa. E durante todo esse tempo, o mestre Kenzo o observou passivamente sem alimentar uma ânsia de corrigir a respiração de seu aluno – e era exatamente nela que estava todo o segredo da habilidade necessária para envergar o arco; habilidade e não força.
Eugen, depois de muito tempo, aprendeu a respirar corretamente e chegou à conclusão de que o sucesso residia em sua nova maneira de respirar, pois conseguira, com grande habilidade, empunhar a flecha e envergar o arco sem ter a sensação de ter que retirar toda a força do solo através do tensionamento da musculatura das pernas.
Sobre essa descoberta de seu sucesso e sobre o tempo que seu mestre o observou sem nada falar, quis perguntar a um amigo – também aluno de Kenzo – o motivo de seu mestre nunca ter lhe dito algo a respeito de sua respiração e postura erradas, ao passo que este lhe respondeu: “Um grande mestre tem que ser, ao mesmo tempo, um grande educador. Se o aprendizado tivesse sido iniciado com os exercícios de respiração, jamais o senhor se convenceria de sua influência decisiva. Era preciso que o senhor naufragasse nos próprios fracassos para aceitar o colete salva-vidas que ele lhe lançou.”
Esse é um belo exemplo de uma das “práticas pedagógicas” orientais, que obviamente, não serve para uma aula de Língua Portuguesa, pois não vamos assistir nossos alunos cometerem erros e esperar que um dia caiam em si para entender que o ensino oferecido pela professora era importante e até que isso ocorra, permitir que eles escrevam na sua frente coisas como “na onde”, “mais eu sou assim”, “sou mas eu” e observar passivamente, não!
Mas na informalidade das situações cotidianas, a observância passiva do mestre serve para refrear, futuramente, toda a prepotência, pretensão, convencimento e alienação do aprendiz. E como somos todos aprendizes de alguma coisa...
Vale ressaltar que o termo "Prática Pedagógica Informal Oriental" foi uma expressão utilizada por mim nesse texto e que não é uma expressão em uso em nenhuma linha de pesquisa ou produções textuais; tento chamar a atenção para uma atitude interessante de um mestre e que merece ser observada, mas não significa que tenha aplicabilidade em situações diversas, principalmente no ensino formal, exemplo que citei apenas para ilustrar a postura de quem ensina nas mais variadas situações.

Você pode encontrar mais conteúdos sobre a arte do tiro com flechas em: HERRIGEL, Eugen. A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen. Editora Pensamento, 1983. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Poesia Chinesa

A poesia chinesa, assim como a arte da pintura chinesa, está imbuída de toda sua filosofia milenar, ou seja, a forma tradicional, mística e totalmente simples de ver o mundo e de apreender a essência das coisas - enxergar as coisas como elas realmente são. Geralmente, todo o pensamento chinês é intimamente ligado ao Tao, que num sentido mais literal quer dizer "Caminho", mas também quer dizer algo bem maior e ao mesmo tempo algo muito simples. A mística taoista consiste em ir ao cerne do objeto e de não separar observador e objeto: tudo é uno. O Tao é simples e é a partir dele que muitos poetas se inspiram para escreverem seus textos. Talvez, necessite, num outro momento, de uma maior explanação sobre a essência das coisas para ocidentais não iniciados na filosofia taoista, pois há relutância devido ao condicionamento histórico-cultural.
Importa saber que, para o poeta chinês, é quase unanimidade a descrição da afinidade pessoal com a natureza em suas poesias - essa seria a marca dos poetas taoistas.
Outra coisa interessante é que a métrica da poesia chinesa consiste, na maioria das vezes, por uma formação de seis a sete sílabas por verso - um poder de síntese inigualável, que daí podemos entrever aquilo que, anteriormente, referi como "o simples". O simples está em tudo na escrita chinesa! Para traduzir com lealdade esses versos de seis ou sete sílabas, seja para o inglês ou para o português, não gastaríamos menos que duas linhas, isso se o tradutor tiver um poder de síntese e concisão precisos! 
É comum funcionários atarefados utilizarem suas pausas para escrever suas poesias. Na poesia a seguir, algumas alegorias podem ser observadas com total significado embasado no pensamento chinês, como por exemplo "cortinas de névoa", que significam a percepção do vazio ilimitado.
"O crepúsculo descendo do ermo", provavelmente, alude ao horário do dia, em que, para o pensamento taoista, o anoitecer e a calmaria da madrugada é o momento em que a essência do universo encontra-se em maior união com a essência do corpo humano, momento mais propício para a pausa da meditação.
O silêncio citado no poema é condição à priori para a serenidade e esta, por sua vez, é a antessala para a iluminação interior. Segue a poesia:

Desmontado do cavalo,
O crepúsculo descendo no ermo, 
Ouço no silêncio
O murmúrio de um regato da montanha.
Pássaros cantam, pétalas caem;
Nenhum sinal de gente. 
A janela de minha cabana
Tem uma nuvem branca por cortina.

Ch`uan Tê-yu, descrevendo uma visita à montanha sagrada Mao Shan. Tradução para o inglês: John Blofeld.
Mais poesias taoistas podem ser encontradas em: BLOFELD, John. Taoismo, O Caminho Para a Imortalidade. Editora Pensamento, 1979.

domingo, 11 de março de 2012

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no
morro da Babilônia
Num barracão sem número.
Uma noite, ele chegou no bar vinte de novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu.
(BANDEIRA, 1993).
O poema traz uma visão positiva da morte, ao menos nesse contexto específico.
Os quatro primeiros versos me parecem relatar uma situação em que um indivíduo não possui uma vida tão atrativa pelos padrões dominantes. No quarto verso, a figurativa "sem número" parece dar uma tônica de que trata-se de mais um João, mais um José, entre tantos outros de nossa sociedade, sem número, sem lenço, sem berço, um ninguém. A descrição de seu trabalho como sendo uma feira-livre também parece entrever a ideia de que trata-se de um cidadão do mundo no sentido mais negativo, um errante, um sem-teto, sem posses.
O lugar que ele escolhe para se divertir possui um nome emblemático, pois vinte de novembro é a data em que se comemora não somente o dia da Consciência Negra como também o dia de aniversário de Zumbi dos Palmares, um líder que acolhera escravos fugitivos em uma comunidade oferecendo novas perspectivas de vida e de trabalho. É como se João, um escravo errante, pudesse encontrar refúgio no quilombo.
Após uma sequência de descontrações, o que mais poderia João fazer? O que de mais extraordinário poderia acontecer em sua vida além da dança, da música e da bebida? Para alguém carregado de marcas sociais e dificuldades, é como se a morte pudesse parecer o apogeu da vida, o gozo maior, o ápice da noite. Por isso, no poema, parece haver uma ideia de integração entre ambas como se não pudessem ser vistas como opostas, como forças contrárias; é como se a morte fosse a coroação da existência e o alcance da iluminação tão perseguida. 


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Lançamento do Livro "Cultura Popular do Vale do Paraíba"


por Giselle Lourenço

O livro “Cultura Popular do Vale do Paraíba” de Jacqueline Baumgratz[1] nos conduz a uma viagem pelas tradições do Vale do Paraíba e pelas manifestações diversas que somam características fortes da cultura da região.
Lançado no último dia 22 de agosto na Biblioteca Municipal Henrique Macedo, na cidade de Jacareí (SP) o livro “Cultura Popular do Vale do Paraíba” de Jacqueline Baumgratz.
A intenção da autora nesta obra é de salvaguardar o valor inestimável de tantos mestres de cultura popular que por aqui afloraram e que deixaram marcas e ensinamentos que hoje são seguidos por diversas comunidades. Tratam-se de mestres que independem de títulos e de reconhecimento acadêmico para fazer valer sua contribuição na formação de pessoas e que souberam educar gerações através de seus talentos e vivências corroborando uma maior integração social, o respeito comum, a valorização dos indivíduos, a política e a cidadania.
Por entre as páginas, a autora perpassa por manifestações diversas que vão desde a atuação mestres da tradição oral a mestres artesãos, figureiras etc.
Há ainda, explicações a respeito de simbologias e rituais dessas manifestações como catira, dança de fitas, folia de reis (com o significado dos marombos entre outros), explicações sobre a árvore de Natal e o presépio, sobre a congada etc. Também há depoimentos de professores e mestres dessas manifestações e algumas letras de músicas típicas.
O acervo de fotografias nos remete ainda mais para o universo cultural sobre o qual o Vale foi edificado e nos permite conhecer mais de perto mestres como Zé Mira, Dona Lili – Figureira, Inezita Barroso, Mestre Lumumba, entre tantos outros reconhecidos mestres.
Um CD com músicas típicas das manifestações culturais acompanha o livro. Músicas que são cantadas, por exemplo, na folia de reis, na visita aos presépios, etc.
O livro “Cultura Popular do Vale do Paraíba” é uma obra que nos coloca em contato com as raízes do Vale e nos permite perceber a importância dessas manifestações para a história cultural do país. Permite às novas gerações conhecer um Vale que muito se transformou nos últimos anos, mas que ainda possui riquezas culturais inestimáveis e que vale à pena conhecê-las.
Para adquirir o livro “Cultura Popular” você pode visitar o site www.ciabolademeia.org.br e acessar a lojinha. Também pode enviar um e-mail para: ciabolademeia@ciabolademeia.org.br.
Com a autora, com quem tive o prazer de trabalhar fazendo a revisão de texto do livro.

[1] Jacqueline é educadora, pesquisadora, psicopedagoga e atriz. Coordena projetos culturais e dirige espetáculos teatrais voltados ao público infantil. Em 2009, recebeu o Prêmio Taxáua do Ministério da Cultura pela atuação e articulação como liderança em ações artísticas e culturais no Brasil e é idealizadora e presidente da Cia Cultural Bola de Meia, fundada em 1989 na cidade de São José dos Campos.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


Estamos criando uma geração de fracos, molengas e cretinos?

Em primeiro lugar, honradamente, transcrevi um artigo de um professor e psicólogo dentro desse texto que pouco tem de meu, dada a riqueza de coesão e esplendorosa clareza de idéias do autor com quem, humildemente, farei um pequeno silogismo. Silogismo esse que surgiu a partir do momento em que identifiquei no discurso do professor Luciano o encontro das águas entre o rio que caudalosamente descia pelas encostas da minha mente e o mar de grilhões fortes e contundentes de uma visão de educação a qual tendo a inclinar-me. Nesse momento, remeter-nos-emos ao texto do professor, escrito há dez anos e tão atual:

Últimos lugares

Luciano Marinho

Estudantes brasileiros, na faixa de 15 anos, integrantes das redes de ensino público e privado, se submeteram a testes de avaliação de cultura e aprendizado, num concurso internacional. Obtiveram – todos eles – os últimos lugares.
Um fato? Uma realidade? Um sintoma gravíssimo, que não deveria passar despercebido por aqueles que fazemos educação neste país. Um sintoma gravíssimo, até porque demonstra uma problemática conjuntural, e não apenas individual. Muito provavelmente, esse fato não tem a ver com deficiências emocionais ou cognitivas.
Não obstante, tais resultados exigem uma reflexão emergencial, não só de natureza pedagógica (metodológica e técnicas de aprendizagem) mas também ético-institucional.
Há de se defender a tese de que existem evidentes fatores causais – de base estrutural – fundados numa pseudopedagogia e numa duvidosa política de educação, os quais explicam, mas não justificam, um desempenho tão negativo e decepcionante: os últimos lugares entre representantes de 32 países.
Um desses fatores é a “promoção automática”, através da qual o aluno será aprovado, independentemente dos resultados alcançados. É obvio, pois, que a certeza da aprovação implica desinteresse ou desmotivação pelo estudo.181
Revisão:Leandro - Diagramação: Léo - 14/07/2011COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
O modismo da “ludicidade” constitui outro exemplo. Hoje em dia, na aula, o professor (coitado!) tem que tocar violão, dizer piadas de baixo nível, ou mesmo fantasiar-se de “palhaço”, para tornar o processo de ensino-aprendizagem “agradável” e ser aceito por uma clientela, salvo exceções, de “imbeciloides”. Estudo é coisa séria. Seríssima.
Outro fator importantíssimo: a imaturidade do aluno. Ultimamente se entra na escola no berçário, e mal completa 15 anos, já está às vésperas de um vestibular – que não representa apenas um processo de seleção e classificação, mas sobretudo uma opção por determinada área de estudo, por uma profissão. Daí a situação dramática dos orientadores vocacionais.
Ademais, o excessivo número de faculdades particulares flexibiliza escolhas prematuras. Coincide com os interesses subliminares do governo Federal pela amostragem dos indícios estatísticos. Mas, não basta modificar os quadros percentuais da escolaridade; em particular, da universidade brasileira, para se promover a boa educação. Como este país vive de “marketing”, então qualquer fantasia publicitária satisfaz.
A falta de perspectiva profissional é um outro desses fatores. Ironicamente, parece que o grande objetivo do público jovem feminino é, hoje, a carreira de “modelo fotográfico”; e do masculino, a opção artística de talvez tocar pandeiro num grupo de pagode. Essa geração, no futuro, não se perdoará; se insistir nesse ritmo de aspiração e estilo de vida.
Pois, somente um estudo sistemático e responsável, sério e acumulativo, é que
transformaria toda essa frustrante condição de incompetência. E transformaria, com certeza, para melhor.

Luciano Marinho é psicólogo e professor de língua portuguesa

Jornal do Commercio. Opinião. Pernambuco, 27 dez. 2001

Considerando essa exposição tão familiar aos meus pensamentos, parei para repensar os últimos paradigmas adotados pela educação atual. Uma mudança significativa aliás, quando analiso os moldes nos quais tive que me enquadrar em meu tempo de escola.
O fato é que quando penso em vários fatores que norteavam o cotidiano de uma escola de ontem e os que norteiam o cotidiano das escolas de hoje, encontro discrepâncias comportamentais significativas.
A indisciplina, por exemplo, sempre existiu em ambiente escolar. Mas custo a crer que meus colegas de ontem eram mais ou tão indisciplinados quanto os alunos de hoje. Não eram não!
Antes, quando disciplina ainda era conseguida à custa de condicionamento e poderíamos até dizer “militarismo” no melhor do sentido (pois, o termo com certeza adquiriu sentido pejorativo nos últimos tempos), os alunos não podiam gritar em sala de aula, não podiam levantar a voz ao professor, a quem, inclusive, era dada autoridade máxima em exercício de sua função. Enfim, eles não podiam se expressar assim como bem entendessem. Ao passo que, intuitivamente, concluo que eles escreviam melhor, conseguiam apreender mais informações e interpretações sobre um texto, concentravam-se melhor e mais intensamente ao invés de se perderem nas considerações infinitas de que podiam reivindicar seu bem-estar enquanto receptores do conhecimento batendo o pé como fazem hoje, gritando e ameaçando até que o educador ceda-lhe o espaço e a vontade. Pois hoje, não se pode impor nada a um educando, certo? Tudo tem que ser conversado, inclusive porque, se não se conversa com o aluno e não se lhe faz a vontade, ou o professor é ameaçado pelos pais, ou pelo próprio aluno, ou por leis que dizem que não lhe é permitido agir com autoritarismo. Acontece que disciplina por condicionamento era o que funcionava e isso nada tem a ver com autoritarismo, pois cansei de presenciar belas e duradouras amizades entre educadores e alunos em tempos passados, onde ainda se enxergava o educador como alguém que, por um determinado período da vida, assumiu a posição de um verdadeiro mestre de quem se guarda lição perene e vital. Fico então a pensar: tantos conceitos novos, tantas pesquisas tidas como evolutivas etc. Psicologias reversas, por exemplo, quase nunca as vi funcionarem. Casos esporádicos que acabam por dar certo e nada mais. E todos os dias  pergunto para onde estamos caminhando com tanta evolução e com tanta pesquisa. Tanta tecnologia, tanta possibilidade de recurso, tanta ludicidade moderna, tanta psicologia do IMATUROCENTRISMO, ou seja, a idade imatura sendo a regente de todas as coisas e a dona de todas as vozes.
Essa reflexão pode até dar margem para a desconfiança de uma mentalidade retrógrada, um abuso de autoridade, um saudosismo vazio e ignorante, discurso autocrata para políticas a punhos de ferro e dedos de bisturi, mas sei bem das transformações últimas do mundo, das respostas ineficazes de outrora para os tempos atuais, dos padrões obsoletos que não podem mais retornar, da metanóia causada pela enchente de informações cibernéticas, sei de tudo isso. Mas ainda sim, demoro a conceber que a maestria esteja no caminho certo. Se o passado já não serve, a tendência atual talvez seja duvidosa. Fatos estão aí para comprovar algumas coisas: aluno que entra atirando na escola, criança que não pode ser reprovada e chega à universidade quase semi-analfabeta, adolescente que não é capaz de escrever uma redação, pessoas que não entraram em combate na fase de formação, que não souberam o que é confronto, confronto de idéias, confronto de vontades – vale lembrar que o filósofo Nietzsche muito escreveu em toda sua obra sobre a importância do embate para que o homem cresça em caráter, força e maturidade – e que se tornarão cidadãos incapazes de argumentarem e se porão em ação feito amebas com pernas e que por não terem absorvido o gosto do verdadeiro confronto, acham que podem matar o professor porque acordou de mau humor e notou que o mundo naquele dia não estava funcionando como ele queria. Enfim, comportamentos assim não eram tão comuns em tempos em que os moldes eram arcaicos. Não dizem que o fator mais incisivo para uma nova sociedade é o educacional? Então, será que os paradigmas estão mesmo evoluindo, ou será que caminhamos para o retorno ao jardim do Éden onde tudo era perfeito mas o homem continuava sem poder conhecer?
Como diz o professor, educação é coisa séria e não brincadeira de peteca com livros e marionete com educadores, nem de telefone sem fio com a literatura e nem de amarelinha pra chegar ao céu pulando os números! Será que não estaríamos criando uma geração de fracos, molengas e cretinos?
Eu não sei responder qual o melhor caminho, mas desconfio que o atalho atual esteja errado... Deve haver um caminho do meio em que os pesquisadores esqueceram de trilhar, talvez só porque o outro caminho fosse mais bonitinho. E de desafio em desafio, vamos marchando do nada para lugar algum. 

Homeoteleuto, será que isso morde?

É de comer? É uma peça de avião? É um filósofo da Grécia Antiga? Será que isso morde?
Imaginem! O homeoteleuto é um recurso sonoro da linguagem, aliás, muito usado na poesia contemporânea. Facilmente confundido com a rima, diferencia-se desta pela repetição em forma de enumeração, ou seja, suas rimas funcionam com palavras seqüenciais e não obedecendo a uma métrica poética como nas rimas mais clássicas. Ainda não está claro? Então vamos aos exemplos.

Veja a seguir um exemplo de uma rima em um trecho de um poema de Luiz Vaz de Camões:

“Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.”

E agora veremos um exemplo de homeoteleuto. Note no que ele diferencia da rima:

“...Nos desata, dos desvela, nos revela.
...a importância do poeta: porque ele anuncia, denuncia...” (poema de minha autoria disponível neste mesmo blogue na seção “Poesia Autoral – O dia do Poeta).

Mais um exemplo de homeoteleuto de um clássico de Guimarães Rosa:

“Cassiano pensou, fumou, imaginou, trotou, cismou, e, já a duas léguas do arraial, os seus cálculos acharam conclusão.”