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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre o livro: Lirismo Crônico

Foto: Paulo Roxo Barja
Se a ideia era um livro sobre futebol, papel cumprido! Eis aqui o diário de um jogador que esteve em campo em todos os jogos da Copa do Mundo! Enquanto seu coração jogava em campo fértil, seus pés faziam a melhor jogada para quem quisesse a bola. E por isso, não é apenas um livro sobre futebol, apesar de os mais Roxos Paulos torcedores desse Brasil encontrarem aqui uma epopeia futebolística para ler-se com cerveja ou café - você escolhe. Sabe aquela história? "Flamenguista roxo?" Ai, desculpem! Paulo é santista... Foi um lapso freudiano, como dizem por aí. Aliás, ele deveria chamar-se: Paulo Santos Roxo... Barja...
O meu enfoque é que, lendo essas linhas, eu descubro que há dois tipos de autores: o trágico, que insiste em negar a exuberância da vida por causa das paixões que decepcionam e o otimista, que retira das pedras a beleza e alegria, a força e a esperança. Eu fico com o segundo. Por isso, identifiquei-me com o autor e não só. Reencontrei-me, redescobri minha brasilidade adormecida a partir das perspectivas oferecidas aqui.
Foi muito construtivo pra mim, saber que agora, não só não somos dependentes do futebol para moldar nossa imagem diante do mundo, como também superamos tal dependência. E as crônicas deste livro são de um lirismo tão contagiante que, como podem perceber, o lirismo não é apenas crônico mas também epidêmico.
Eu fico muito contente em saber que o meu patriotismo vai além dos gramados (amo futebol e entendo pacas da arte, modéstia à parte), e poder confirmar com essas reflexões do livro, praticamente existenciais, humanistas e transcendentes que não estou sozinha nessa esperança e nesse otimismo brasileiro é consolador e significativo.
Como já dizia outro que partira dias atrás, sigamos sem desistir do Brasil! E isso está tão bem traduzido nessas linhas e entrelinhas. Irmanados na poesia, na literatura, no futebol e em tantas outras coisas que nos fazem um, entenderemos dentro em breve - e principalmente com a ajuda desse livro - que não somos mais o país do futebol mas podemos ser ainda o país da bola, se soubermos cabecear a "bola da vez".

Giselle Lourenço

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cora Coralina: Raízes de Aninha




Tantos se dizem apaixonados pela figura de Cora Coralina...
Eu era mais uma dessas que me dizia apaixonada pela velhinha goiana que escrevia poesias e fazia doces. Até aqui, havia lido uma biografia, algumas crônicas, alguns contos, várias ou muitas poesias, diversos documentários, os quais, inclusive, tratavam direto com a poetisa.
O que eu não poderia imaginar era que ela realmente voltaria, tal como prometera em seu epitáfio.

"A pedra de meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.
Eu voltarei...”
Cora Coralina

Não poderia eu imaginar que ela voltaria pelas mãos de um anjo, que possivelmente, ela mesma enviou. As mãos daquela que, dentre tantos e dentre poucos, também encontrou na figura da velhinha da casa velha, na aurora do cronos, na fortaleza encarnada, essas mãos que me dedicaram um livro... Um livro que encerra uma vida transformada, uma aura iluminada, uma em dez, uma em mil, uma em todas.

Dividiu as águas profundas, mansas e turbulentas de meu mar o livro “Cora Coralina: Raízes de Aninha”.

Não tenho crítica literária para fazer à referida obra e nem analiso seus autores criticamente. Não cabe... Porque não cabe mais em mim o transbordar de poesia em chão batido, o chão nosso de cada dia refrigerado de flores, rosas, ipês, borboletas...

Tive eu um encontro pessoal com Cora Coralina. É um transfigurar de seu corpo em palavras que encontraram o espelho dentro de mim. Encontrei-me com Cora. Conheci Cora. Vivi com Cora. Senti o cheiro de Cora. Perpassei as orações de Cora. Senti o calor e as rugas de suas mãos. Percebi seus dedos calejados e tortos entrelaçados aos meus. Dilatei meu coração. E de repente, foi um misto de transe e erupção vulcânica. Até meu corpo teve dor... Ela, realmente, voltou. E eu, realmente, a vi.

Entendo agora e até respondo a dúvida que pairava com os escritores desta obra sobre o “para quê” de mais uma biografia de Aninha. Porque, ainda que leias todas as biografias sobre Cora, qualquer uma delas poderá ser dispensada em virtude dessa. Em virtude das raízes que aqui, oferecem a seiva que nutria a velha, que nutria a jovem e que nutre o mundo. Essas raízes nos oferecem um encontro espiritual e carnal. Sinestesia extrapolada. Um mergulho nos ares correntes da casa velha, da velha, da ponte, do rio... Esse livro – Cora Coralina: Raízes de Aninha – é um manual sobre como ler Cora... Como ler suas poesias, sua vida, sua mensagem. Apresenta-nos Cora assim: olho-no-olho, mão-na-mão, raio-em-copa.

Não quero parecer uma herege ao universo cristão, portanto peço licença... Mas Raízes de Aninha tornou-se meu Evangelho. Nunca tão encarnado. Nunca tão frutificado em mim como agora. O cultivo das rosas em terra vermelha fez esparramar polens até meu coração. Sinto que dele, começam a nascer rosas... Nunca tive rosas no coração se não me esforçasse muito pra isso. Agora, elas brotam assim, com o mínimo cultivo.

Olho ao redor, vejo Cora. Tem um sopro aqui ao pé do ouvido... É Cora... Sua voz... Ela me fala o tempo todo. Vou tratar de vida corriqueira, fala Cora aqui pra mim. Vou parar para rezar, parece que ela me empresta seu coração e de presente, sua fé. Vou admirar-me da vida, da família que cresce, ela me empresta seu olhar... Não, não deixei de ser eu mesma. Não sofro crise existencial ou de identidade. Ela, o evangelhozinho simples da labuta, da humildade, da esperança e da força penetra aqui no meu pobre coração e me ensina coisas que já avançava o tempo de eu aprender.

Agora sim, eu entendo de Cora. Sinto-me sua filha. Mais uma... Isso foi o que o debulhar dessa espiga dourada intitulada “Cora Coralina: Raízes de Aninha” veio trazer ao milharal de minha vida. Digo sem pretensão, com humildade mas com certeza: sou doutora em Cora Coralina. Presente de anjo dá nisso... A obra está pronta a fazer mais doutores que se dispuserem em alma e tempo. Esse pleno entendimento não é mérito meu. É mérito dos outros filhos de Cora que, com esmero, a fizeram reviver nessas linhas de ouro. Obrigada: Clóvis Carvalho Britto & Rita Elisa Seda.

Dedicatória da autora Rita Elisa Seda (quem me presenteou com a obra)



Também eu quero chegar à minha casa velha da ponte...
Não sei que casa
Não sei quão velha
E não sei qual ponte



Casa Velha da Ponte em Goiás, onde viveu Cora Coralina.
Hoje, Museu Casa de Cora Coralina - Goiás.
Apenas sentir no findar de minha vida algo assim...
Viver valeu a pena
O tempo é meu amigo
E o chão é sim batido



Giselle Lourenço

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Coisas de São José (com carinho à cidade de minha filha)

Coisas de São José (com carinho à cidade de minha filha).
Ainda sobre o caso "Estacionamento de Hospital". 

Reza a lenda por aqui que a população, tal qual Odorico, anda com a alma lavada e encharcada de revolta. Coisas de um tal Hospital-Maternidade de freiras que resolveu cobrar seu pedágio para os que precisam, na doença, seguir por suas estradas celestiais e seus corredores paradisíacos. 

Se você passa na porta, lá avista, orgulhosa, a plaquinha de tarifas que relacionam os valores com seus períodos. Essa lenda continua rezando por aqui. Eu queria mesmo era que as freiras rezassem também! 

Os mais piedosos que me perdoem, não abri fogo contra sua denominação. Apenas sou contra denominação que comunga com a dominação. Tenho muito respeito pelo hábito, desde que ele, realmente, faça o monge. E se você pensa, ingenuamente, que ofereço riscos à hombridade instituída, Jesus, aquele que era o Cristo, não seria tão polido como eu sou.

Soube da lenda que, em horas de missa, o sujeito pode entrar sem pagar, afinal, quem vai à missa é mais santo que o doente moribundo. É mais nobre que o acompanhante que pernoita por lá tendo acolhido a mensagem "toda vez que cuidaste do doente, a mim o fizeste". Ah, nem me peçam a citação de capítulo e versículo pois não cultivo a pregação querigmatica.
Cá estou esperando, pois seguiu correspondência minha à cidade de Roma. Desinformada é coisa que não sou. Dou sorte... Certa vez, disse-me uma freira desse lugar toda piedosa, pomposa e orgulhosa: "Não somos de direito diocesano, somos de direito pontifício." Ora, bom então. Minha reclamação tem como destino a província do mundo. Estou aqui esperando... Mas dei ação pra revolta. Fui pedir satisfação...
Fico apenas me perguntado: Como é que se prova ter ido à missa para não se pagar o tributo? Será que é só dizer as palavras do Cristo: "Não façais um comércio na casa de meu Pai!"? Isso provaria a piedade de alguém?

Texto dedicado à minha madrinha Cora Coralina
Giselle Lourenço

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pensando o Tempo

Ando pensativa sobre o tempo...
Sinto saudade de um tempo que nem bem toquei...
Como é que se chama a saudade daquilo que nunca lhe pertenceu? Alguns diriam que é a ânsia pelo eterno. Não sei. O tempo é um bordado lindo que, se visto pelo avesso, deixa entrever arestas e confusões.
Confusões sobre o tempo faz a gente no tempo de hoje. Acha que ele vai mais depressa. Acha que ele é senhor de tudo. A gente acha muito sobre o tempo, só não acha mesmo o tempo. Será?
Sinto falta de quando, para almoçar com o outro, não precisava telefonar. Quando muito, chegavam cedo para o fim de somar as mãos do fogão para a mesa ou completar a parte do açougue. E que coisa é essa de ter de ligar duas semanas antes pra avisar que te esperem para o café? Nesses momentos, acharia bom a não-invenção do telefone. Queria saber qual seria a desculpa.
Sinto falta de quando os potes de plástico (que não eram Tuppeware) iam e vinham numa procissão de oferendas da criatura para a criatura. Eu me lembro que eles iam no domingo cheios de canjica e voltavam por volta da quarta-feira cheios de empadas. Na semana seguinte, era a vez dos vizinhos das três casas abaixo. Em um mês, via-se a procissão feita pela rua inteira. Era a fração do pão na fração dos dias. Nunca mais acompanhei essa procissão. No polo onde vivo, as procissões não levam muito pão e nem movem muito a vida. Não sei se essas procissões ficaram remanescentes em algum paraíso perdido. Quem me dirá?
Sinto falta de quando as mães levavam seus filhos pra rua, sentavam-se à beira do meio-fio (era assim que se tinha por nome a "guia" de calçada na minha terra), e ali, as crianças eram crianças de pés descalços e .amizade construída sobre os momentos da vida em que não se precisava fingir nada. Hoje em dia, as mães não querem levar os filhos pra rua porque é lugar de desocupado. Porque precisam limpar a casa. As mulheres limpam tanto suas casas aqui no meu polo que parece até que Deus está vindo visitar... E quem vem? Muitas vezes, ninguém mesmo. Limpam para não receberem ninguém... Trancam-se lá os membros da família e respiram juntos o odor da lavanda e do isolamento, cada um no seu canto. É assim que a vida ensina hoje.
O isolamento é primo do individualismo. Individualidade é coisa rara por aqui. Mas em nome dela, as pessoas se isolam umas das outras, reivindicando, para si, esse direito. Elas atingem o individualismo, que é primo do egoísmo. E de repente, passam a repetir comportamentos e pensamentos massivos. Então posso repetir: individualidade é coisa rara por aqui.
Arrisco dizer que o individualismo é o mal deste século e o pai dos males psíquicos que cortam nossa aurora. Parece que até casa grande e senzala tinham mais comunhão. O que acontece com os outros que continuam apenas sendo os outros? Um alvoroço de gente em períodos de entrada e saída de trabalho não pode significar contato ou conexão. Aliás, o homem nunca esteve tão desconectado, apesar das conexões de banda larga. E ainda há aquela velha desculpinha: "Sabe como é a correria, né? Os dias estão numa correria só! ". Bom, pode até ser... Mas daí a usar a falta de tempo como condição existencial mais sublime que alguém possa alcançar é um erro mortal e um pecado que te excomunga da vida. E já notaram como tem gente que profere com orgulho a sua falta de tempo?
E por fim, nem é o muito falar que faz comunhão de vidas... O homem nunca usou tanto as palavras. E nunca delas entendeu tão pouco. Quem sente falta das mesmas coisas que eu, tende a usar menos as palavras, ou aventura-se a nelas encontrar repouso usando a tecla, a tinta ou a pena.
Giselle Lourenço

sábado, 19 de maio de 2012

O que uma azeitona tem a ver com a Filosofia?


Você sabe qual a origem da palavra “conserva” ou “conservo”?
Significa, literalmente – com servo.
E isso, graças ao filósofo Hegel (filósofo moderno alemão) que construiu um pensamento de dialética em que um sujeito só se afirma em sua relação com o outro e que, isoladamente, nada representa.
Difícil? Nem tanto... Hegel fala da sobreposição das coisas, e em seu célebre caso “Senhor e Servo” ele nos introduz à sua dialética, de onde podemos entender então, a origem da palavra em questão. Vejamos a metáfora hegeliana a seguir:

Dialética do senhor e do escravo
Dois homens se enfrentam numa luta de reconhecimento. O primeiro arrisca a sua vida em prol do reconhecimento, o outro, por medo de perder a sua vida, se submete. Instaura-se assim uma relação entre senhor e servo. Senhor é senhor pelo seu servo e o servo é servo pelo seu senhor. Nenhum deles é o que é sem o outro. Este é o reconhecimento. O vencedor (o senhor) não mata seu adversário vencido (o servo), mas o conserva, pois é pelo servo que o senhor é reconhecido como senhor. Conservar, literalmente, significa com-servo, isto é, produzir um servo, que é resultado imediato da luta pelo reconhecimento.[1]

É claro que isso é uma metáfora e que servo e senhor aqui podem significar muitas coisas. O importante é fazer a relação da etimologia da palavra que usamos atualmente. Hegel observou esta dialética quando notou que a derrota prussiana foi um “mal necessário” ao espírito alemão, que serviu de alavanca para que, naquela situação histórica, a Alemanha pudesse ressurgir das cinzas.[2]
Fazendo então uma atualização semântica, podemos estabelecer uma relação de que tudo aquilo que mantemos conosco de maneira submissa equivale ao que irá nos servir. Mantemos uma relação de senhor com algo que dominamos e que prevemos com relação a como o objeto irá nos servir, por quanto tempo e de que maneira. Continuando o desdobramento filosófico do tema, é bom saber que há uma lógica interna da dialética hegeliana que se trata de uma marcha negativa da dialética. A metáfora de Hegel continua sua explicação dizendo que pelo fato de o servo ficar alheio aos produtos que produz para o seu senhor, acaba tendo que superar suas provações, tem que lutar e usar de criatividade para viver sem aquilo que produz para o senhor, e isso o transforma em um indivíduo que ganha mais liberdade que o seu próprio senhor porque produz e o senhor, por sua vez, apenas consome. A incapacidade senhoril de produzir e de criar, levando o senhor a ficar refém da produção de seu servo é chamada por Hegel de desvanecer contido, e a mudança de perspectiva de liberdade criada pelo servo é por ele chamada de desejo refreado.
Assim, quando você tem uma lata de azeitona em conserva em sua geladeira, a relação de conserva é cíclica, seguindo os moldes dialéticos hegelianos. Por quê? Porque ao mesmo tempo em que a azeitona é a senhora da relação entre ela e o líquido no qual está imersa, ela também é a portadora de um desvanecer contido, uma vez que, depende daquele líquido para permanecer em sua utilidade no fim para o qual foi posta em conserva.



[1] HEGEL, G. W. F. A. A fenomenologia do espírito. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os pensadores)
[2] Sobre a guerra franco-prussiana que derrotou a Prússia impondo a necessidade de uma renovação cultural e espiritual da nação alemã.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A Publicidade Brasileira e a Desumanização

Quem assistiu, nos últimos dias, ao novo comercial da Peugeot, pode até ter dado algumas risadas, só não deu foi conta da gravidade da proposta incutida naquela simulação. Apenas para recordar: O suposto gerente de uma loja de automóveis solicita que o estagiário abra a porta, onde, do lado de fora, uma multidão aguarda para, a seguir, entrar como bois desgarrados passando por cima do estagiário e em seguida, o gerente reforça a outro colega: “Estagiário...” Ou seja, para situações assim, temos os estagiários, é pra isso que eles servem!
É óbvio que, não se trata de uma mediocridade só dos profissionais publicitários (que, diga-se de passagem, no Brasil, a publicidade e suas propostas são deprimentes, me perdoem os profissionais da área, e sei que existem as raríssimas exceções que merecem respeito e que salvam a categoria), mas trata-se também de que os profissionais estão apenas reproduzindo para um público maior, a mentalidade vigente de uma nação, onde a figura de um estagiário representa, justamente, aquele indivíduo que existe para ser explorado, fazer trabalhos que ninguém se presta a fazer e agir como uma verdadeira mucama. Essa cultura vem sendo reforçada nos últimos vinte anos, aproximadamente, principalmente dentro das corporações americanas e se acentua conforme a “América vai descendo”... E isso é ainda mais comum em ambientes empresariais, com objetivos mais técnicos e mercantis. Digo isso com propriedade, pois apesar de ter hoje, um pouco de experiência atuando como revisora de textos no mercado editorial e estar engatinhando na área da educação e idiomas, tenho vasta experiência nos setores administrativos de empresas de pequeno, médio e grande porte, onde, por muitas vezes, vi cenas similares às do comercial serem reproduzidas.
É muito entristecedor perceber que os telespectadores brasileiros assistem às coisas como, definitivamente, EXPECTADORES. Não questionam nada que lhes enfiam “goela abaixo”. Não somos educados no Brasil para percebermos a ideologia por trás de uma propaganda, não somos instigados, desde cedo, a desenvolvermos o pensamento crítico sobre o mundo que nos cerca. E daí, assistimos a coisas como essas e ainda concordamos, damos gargalhadas e tratamos de reproduzir esses comportamentos por não possuirmos padrões éticos pautados numa “autonomia moral”[1] que busca seus princípios do agir na sociedade com base nas reflexões acerca da realidade e voltadas para a promoção humana coletiva. O estagiário que recebe o trote hoje, é o funcionário que passará o trote amanhã e assim caminhamos.
Algumas coisas são boas de aprender com irmãos de outras culturas. Em países como a Suécia e Alemanha, por exemplo, a figura do estagiário é de suma importância para o desenvolvimento do país. Seus tutores tem o cuidado de enxergar neles o talento em potencial que poderá dar continuidade ao progresso da nação e ao seu desenvolvimento intelectual. Até mesmo, no Japão, onde a carga horária é intensa até para estagiários, existem programas governamentais vinculados a “ministérios” de cultura e educação de forma a estimular a maior interação possível desses aprendizes com suas escolhas profissionais. E na Alemanha, dependendo do programa de estágio, os estudantes, se forem dos mais empenhados e interessados, podem também submeter textos à instituição de ensino, como fontes de pesquisa, baseados na observação desses ambientes profissionais e em suas experiências adquiridas. Eu acrescentaria aqui, numa ousadia que me é particular, que é válido lembrar de uma regra preciosa na ordem monástica beneditina, onde São Bento diz que, na dúvida, quando todos os outros monges mais experientes não tiverem opiniões ou posições para determinados assuntos, escutem o mais jovem noviço.
Estagiários podem servir o café? Podem! Podem abrir e fechar a porta? Podem! Podem limpar o chão? Podem! E devem tudo isso fazer! Mas devem fazer orientados por um mestre, no sentido mais nobre da palavra, para que aprendam o valor de cada trabalho, até porque, para nosso pleno desenvolvimento, precisamos exercitar várias áreas do cérebro que diversos tipos de tarefas nos podem ajudar. Ter este “olhar de cego que vê além” é que possibilitará o amadurecimento profissional e o respeito pela pluralidade de talentos, todos necessários. E aí, eu acrescento que orientar estagiários também é tarefa nobre e poucos a fazem com excelência e sabedoria.
Provavelmente, serei criticada por avaliar sempre negativamente o pensamento massivo brasileiro, por nunca enaltecer nada na minha pátria. Se isso for considerado falta de patriotismo, então não sou patriota. Se eu tiver que fingir que está tudo bem em meu país e que nada há que se fazer para melhorá-lo, e que expressar opiniões a respeito da alienação coletiva é um erro, então, não sou patriota mesmo. Nesse caso, terei que compactuar com o pensamento muriliano, afinal quem não se lembra desses versos?

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família tem por testemunha a Gioconda. (trecho de poesia de Murilo Mendes)



Obs.: Dedico esse texto à professora Andrea Santos, que sabe orientar como ninguém suas estagiárias e com quem tive o prazer de aprender muitas coisas.


[1] O termo “Autonomia Moral” é utilizado pela pesquisadora educacional e psicopedagoga Telma Vinha em seus textos sobre uma construção coletiva das ações morais pautadas nos princípios éticos e que devem ser do conhecimento de todos os indivíduos para que não reproduzam comportamentos baseados em códigos de conduta em que desconheçam seu real sentido.

sábado, 7 de maio de 2011



Na onde? 






Já é sabido entre alguns dos leitores que vivo na cidade de São José dos Campos, um centro nervoso de tecnologia e um pólo industrial. Tanta tecnologia assim deveria proporcionar uma evolução em todos os âmbitos da vida, mas não é o que parece ocorrer. Pelo menos não na questão da linguagem.
Andam surgindo expressões por aí que até pouco tempo atrás, não me recordo de as ouvir na região. E antes que algum lingüista alucinado resolva proclamar a validade lingüística de algumas delas, é melhor fazer alguma coisa a respeito.
Um exemplo da colossal aberração tem sido a expressão “na onde”. Ouço pessoas dizendo: “Na onde você vai?” “Na onde você comprou esse sapato?”. 
Dentro dos limites geográficos em que permaneço no decorrer de meus dias, convivo com algumas classes diferentes. Classes, aqui, pode-se entender como classes comportamentais, pois nem sempre a classe social é que dita o perfil ou interesses de uma pessoa. Convivo com classes mais intelectuais, com classes mais alienadas, com grupos massivos que se permitem levar ao sabor dos ventos, e não noto a expressão em todos esses grupos, mas o fato é que em algumas camadas ou em alguns grupos, esse tipo de expressão tem se tornado muito corriqueiro.
Recorro aos amigos, possíveis leitores desse blog, que sejam especialistas em língua, em gramática, pesquisadores dos fenômenos lingüísticos, para que dissipem a minha dúvida se trata-se de algo extremamente local. Não sei se essa expressão tem sido usada fora dos muros do Vale do Paraíba. Alguém aí consegue dizer?
 Bom, mas aos desavisados de plantão, a correção que eu gostaria de fazer era essa:

Não se diz: “na onde”.  – Isso, simplesmente, não existe!
Ou se diz “onde”, ou se diz “aonde”. Ambos são advérbios de lugar e são empregados da seguinte forma: Onde, para designar um local permanente (Ex. Onde você comprou esse sapato?). Aonde, para designar uma condição de movimento (Ex. Aonde você vai?), ou seja, para onde você vai.

Vale lembrar que “na” = em + a, então, se quero usar de qualquer jeito a preposição na minha construção, basta dizer: Em que lugar você vai?

Eu estou num estado primário de revolta presenciando o advento de uma expressão tão estapafúrdia como esta e a tenho escutado de pessoas que eu nem esperava uma lástima dessas.

Pra finalizar, tenho vontade de gritar, minha gente: “Na onde” não existe! Por favor!
Tenho uma teoria de como essa expressão possa ter surgido e me arriscaria a esboçá-la aqui, mas talvez seja texto para um próximo momento. Vamos aguardar a segunda parte, até porque, estou curiosa para ler comentários a esse respeito antes.

Giselle

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Você sabe qual a origem da palavra HERMÉTICA?


Eu não sabia. Outro dia, estudando um pouco sobre mitologia grega - assunto este que me desperta muitíssimo interesse devido à criatividade artística das representações e simbolismos - soube de onde advira a palavra. 

Para as civilizações gregas antigas, o deus Mercúrio era o deus da ciência. Toda sabedoria estava nele contida. Em Roma, o deus Mercúrio era conhecido como Hermes, o mensageiro do Olimpo. Nas escolas das antigas civilizações, a sabedoria de Hermes era passada apenas de "boca a ouvido" e quem a recebia fazia juramento de silêncio. Acredita-se que era assim que se passava, desde os primórdios, os princípios da Alquimia, a arte de produzir o ouro. Essas escolas, cujos sistemas de transmissão deveria ser fechado, eram as escolas herméticas (que recebiam a sabedoria de Hermes). Daí o nome "hermético" para designar algo extremamente fechado, sem brechas para passagem de nada; nada entra e nada sai. 
É muito comum vermos a palavra "hermética" em tampas de vasilhames ou garrafas térmicas, onde a passagem do líquido não deve ocorrer. 
Outro termo que advem de Hermes é a palavra "hermenêutica". Essa palavra é consideravelmente utilizada no estudo da Teologia, onde então vai significar a extração do conteúdo de mensagem verdadeira ou o mais próximo possível da verdade, sem dissonâncias. Quando se faz uma hermenêutica bíblica, por exemplo, se situa no contexto referido para que seja extraído aquilo que o autor queria de fato passar ao escrever determinado texto.
Enfim, agora já sabemos que tudo que é de Hermes designará em sabedoria, proximidade com a verdade, selado, guardado a sete chaves.
Giselle Lourenço

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Vamos fazer ou frequentar?

Por Giselle Lourenço

Certo dia, ouvi uma pessoa falando que houve um tempo em que ela fazia academia. Fiquei comigo a pensar: “será que antes de exercer sua função atual no trabalho, ela trabalhava com obras de construção civil?”. Imediatamente me dei conta que esse termo é usado por grande parte das pessoas, ao menos na região onde eu vivo, quando as mesmas querem se referir ao hábito de freqüentar aulas numa academia de ginástica.

O fato é que não se faz academia e sim se freqüenta a academia, ou então posso ainda dizer que faço aulas na academia. Quem faz academia pode ser, no mínimo, um pedreiro na edificação do espaço físico ou um engenheiro na elaboração geral da obra.

No contexto, seria o mesmo que dizer “fazer sala” - o que significa, metaforicamente, “fazer companhia a uma visita”. Mas há ainda um diferencial aqui – o termo “fazer sala” é tradicional nos colóquios da língua portuguesa e digamos que poderia até ser empregado numa ou noutra redação, numa obra literária, pois sabemos que fazer sala não significa, necessariamente, construir uma sala e sim permanecer como anfitrião para alguém. Já o termo “fazer academia” parece que ainda não flui bem no contexto, seja na linguagem escrita ou, até mesmo, na verbalizada.

E você? O que pensa? Pretende freqüentar a academia ou faz aulas em alguma?

Resumo:
Academia = objeto concreto que só pode ser feito no sentido de edificado, construído fisicamente.
Aula = objeto abstrato, não palpável, que pode ser feita no sentido de freqüência, de participação no campo das idéias ou da produção intelectual, mas não pode ser construída como um prédio como a academia, por exemplo.