quinta-feira, 30 de abril de 2015

Neste sábado, além das temáticas já programadas no cartaz abaixo, falarei também sobre o que diria Cora Coralina aos Professores e repressores da educação no Brasil no contexto atual, considerando os últimos e lamentáveis acontecimentos em Curitiba no confronto entre PM e docentes. 

Abraços coralineanos,

Giselle Lourenço


Pra não pensar bobagem...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Chá com Cora no Bola de Meia

No próximo sábado, dia 7 de fevereiro de 2015, começamos um sonho de tempos. Um grupo de encontros para reflexões a partir da vida e obras de Cora Coralina, principalmente, para olhar com mais atenção para tudo que ela foi além de doceira e poetisa. O que fez Cora Coralina antes de seu renome como poetisa de Goiás? Quem foi, quem é essa mulher-monumento?
O grupo prevê encontros durante todo o primeiro semestre de 2015, sempre aos primeiros sábados de cada mês.
A responsável por esta página é professora de Literatura e estudiosa da vida e obras de Cora Coralina e mediará os encontros.

Cuidar da alma e jogar o corpo fora?

É muito lamentável o ponto onde chegamos...
Assistindo a um documentário sobre hábitos alimentares modernos e sua relação com as doenças, fiquei muito triste... Parece irreversível, pois parece que as pessoas realmente não se importam! Fiquei chocada ao saber de uma cozinheira da rede estadual que a única coisa que se cozinha na escola é o arroz. Como vem o restante? Enlatado! O feijão? Enlatado! A carne? Enlatada! Os "legumes"? Enlatados! Não temos dó de nossos filhos? Vocês acham que o culpado é o Estado? Nós temos o maior poder concentrado em nossas mãos: o poder de consumir! E somos nós que escolhemos o pior para o consumo, nós é que patrocinamos essa cultura de morte alimentícia!
Nas escolas, o buraco é mais embaixo: uma caixinha de suco é uma moeda bem mais valiosa que uma fruta, uma banana, por exemplo. E nenhuma criança quer sentir-se inferiorizada economicamente, tem vergonha de ter frutas no lanche. Existe uma hierarquia de valores, você vale o que tem desde a escola. Se você tem Doritos e suco de caixinha Del Valle, você é melhor que aquele que leva uma banana e uma maçã. Há casos de crianças que não tem alternativas, ou por conta da situação econômica mesmo ou porque tem prescrições médicas sobre alimentação. Resultado: trancam-se no banheiro para comer aquilo que precisam e não serem alvos de deboche dos colegas. Vivemos em um mundo onde as crianças aprendem que comer fruta é vergonhoso! E todo esse discurso de pais cuidadosos, olhar mais complacente para a infância e o desenvolvimento do ser? Tudo balela se não olharmos com cuidado para o que nossas crianças comem! Os professores de biologia vivem o eterno dilema: como podem explorar a questão dos alimentos em sala de aula e suas propriedades nutritivas se ao saírem da sala de aula, as crianças não podem adquirir esses alimentos na cantina da escola, porque na cantina só tem: salgadinho, Bis, Nutella, Rufflles... Que complacência e espiritualidade estamos tendo para olhar para a criança? Eu lhes respondo: NENHUMA! Os cientistas falam muito sobre a obesidade infantil e que de 5 crianças obesas, 4 continuarão obesos quando adultos. Eu nem me detenho na questão da obesidade... O peso pra mim, fica em segundo plano quando penso em outras implicações de saúde corporal e até bucal. Porque há aqueles que não têm sobrepeso mas que, ainda sim, apresentam problemas alarmantes de saúde, principalmente, nas dosagens químicas do sangue, como colesterol, triglicerídeos e glicose. 
O que acontece conosco? Não fazemos mais refeições juntos. Não cozinhamos a própria comida... Tem que ser tudo fast... Porque temos que ter comida rápida. Mas comer é um ato de amor, de socialização... Não temos que comer rápido... Ah, sim, as mães não têm tempo de cozinhar porque estão ocupadas em seus trabalhos... E aí você confia a saúde de seu filho em um pacote de Dorytos? Parabéns! Ter um filho não é só jogar ele pra fora... O cuidado na primeira infância é apenas o começo... Eu não sou a melhor mãe, não sou o exemplo impecável e nada disso. Mas tento melhorar tudo que posso para o bem daquele ser com quem me comprometi pelo resto da vida a partir do momento em que permiti que ela habitasse minhas entranhas... E não vou parar o serviço no meio do caminho... Por aqui, nem ligo do que falam sobre meu modo de maternar! Sou chata mesmo! Não deixo comer mesmo! Não tenho em casa mesmo! Estimulo o melhor que posso no quesito alimentação. Às vezes, as pessoas não entendem e se escandalizam... Mas esse é um cuidado que não é compreendido justamente porque invertemos os valores. Você é uma mãe legal se você deixa seu filho comer de tudo sem frescura; se você regula a alimentação pensando no melhor para ele, você é fresca, neurótica e tudo o mais que te rotulam. Não, queridos... Nisso, eu sei quem sou e sei cuidar da minha família! Torço para que os outros enxerguem a inversão em que vivemos e que quando enxergarem, não seja tarde...
Convido vocês, mamães, papais, filhos, a cozinharem mais vezes em casa, fazerem pratos caseiros juntos. E vejam que nem falo de cardápios naturebas! Falo apenas de uma alimentação consciente... Nada de tudo pronto ou enlatado... Cozinhar é uma arte, talvez, a mais bela de todas, porque é a que dá sustento para as outras artes. Desnutrido, nenhum artista será criativo. Tenho amigos que adoram esses lanches dessas franquias que nem gosto de escrever o nome.. desses que vêm com hambúrguer, batata frita, brinquedo, refrigerante...Com respeito aos que adoram, manifesto minha verdadeira repulsa por tudo isso! Aqui não tem essa de levar para comer e ganhar brinquedinho... Não acho bonito, desculpem... Da mesma forma que alguns pais estão preocupados com a exposição infantil à publicidade, devemos nos preocupar com os traficantes de fast foods! Um verdadeiro vício pavoroso de nossos tempos! Vamos reunir as famílias em volta da mesa de casa! Vamos procurar alternativas que nos proporcionam uma melhor qualidade daquilo que ingerimos. Você é o que você come! Não queira ser apenas dois hambúrgueres, alface, queijo e molho especial! Seja um viçoso doce de figo feito no tacho, um empadão de frango caipira com folhas frescas e temperos naturais! Vamos enaltecer o processo alimentar selecionando com mais inteligência nosso alimento. E não me venha com papo de alimento pra alma aos domingos se você não cuida do corpo que te foi dado!
Cuidar da alma e jogar o corpo fora? Ora, até Cristo quis o corpo dele de volta... 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os cinco tipos de risos

Que surpresas e luzes podem nos revelar a sabedoria monástica! 

Hoje, li por acaso um artigo que causou-me tanta admiração (um assunto que jamais imaginei que pudesse ser discorrido ou refletido) e ao final do texto, descobri que o autor era nada menos que Dom Bernardo Bonowitz, o Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo no Paraná, um lugar que visitei duas vezes e que até hoje me traz maravilhosas lembranças e onde pude conhecer o próprio Dom Bernardo, quem me recebeu com alegria e simplicidade...

Diz a regra de São Bento que o décimo grau de humildade consiste em que o monge não seja pronto e fácil ao riso. Contudo, Dom Bernardo faz questão de explicar que a regra não exclui a realidade sorridente de um monge. Então, numa escala de um a cinco, Dom Bernardo explica quais seriam os tipos de risos, do mais indesejado até o riso ideal.

1- O riso sardônico: seria um tipo de riso de quem não se encanta por mais nada na vida e a enxerga como uma grande piada. Ri do belo, do nobre, do santo... É como se tivesse sofrido uma decepção em que não pôde suportar e não consegue mais dar crédito a nenhuma realidade, por mais humana ou caridosa que seja.

2- O riso zombeteiro: é o riso debochado. Quando alguém está a fazer o seu melhor e, humanamente, pode não atender os critérios mais refinados e recebe risos e zombaria em troca como se tivesse desempenhando um ridículo papel. Esse tipo de riso pode abrir feridas incuráveis na alma de seu alvo.

3- O riso escapista: é o riso de quem não lida bem com o peso e responsabilidade da vida adulta, de quem considera deveras séria a vida com responsabilidades, sente um fardo ao executar tarefas que lhe exigem o pensamento e a concentração e então, tem uma necessidade constante de se distrair. Dom Abade dá vários exemplos de distração, muito comuns na vida moderna. Um exemplo que eu mesma ouso citar e do qual ele não fala seria a necessidade que as pessoas têm hoje de rir com distrações como "reality shows" ou "stand ups", por exemplo.

4- O riso de comunhão: é o riso de quem partilha o mesmo ideal de vida e que saboreiam uma experiência comum. E para isso ele dá o exemplo de um casal apaixonado, que mesmo sem um motivo específico, pontual, riem apenas por estarem na presença um do outro, como se fosse um estado interior de sorriso que externiza no movimento muscular do sorriso. Do quarto em diante, já estamos no terreno do riso ideal.

5- O riso escatológico: o riso que riremos no fim dos tempos. E ele usa a realidade do "já" e do "ainda não" para ilustrar que, esperar o fim dos tempos não significa esperar cessar a vida terrena para desfrutar de um gozo celestial, pois esse riso ainda não irrompido em exultação eterna já começou desde que o "Logos" - o Filho de Deus quis rir conosco aqui na terra, e que irrompe não só na liturgia mas também na oração ou no simples afeto humano. 

Dom Abade termina num colóquio com São Bento, com a certeza de que o Santo, certamente, dera boas risadas com o assunto do texto. Ora, Dom Bernardo, se ele deu risada, foi a risada escatológica, que já comporta a risada de comunhão.
Foi bom demais ler essas suas palavras. Entender que há humildade e sabedoria até para entregar-se ao riso só podia mesmo ser coisa de monge. E coisa de monge é sempre coisa boa! Deus guarde a Trapa e os monges alegres que por lá conheci!

Giselle Lourenço

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre o livro: Lirismo Crônico

Foto: Paulo Roxo Barja
Se a ideia era um livro sobre futebol, papel cumprido! Eis aqui o diário de um jogador que esteve em campo em todos os jogos da Copa do Mundo! Enquanto seu coração jogava em campo fértil, seus pés faziam a melhor jogada para quem quisesse a bola. E por isso, não é apenas um livro sobre futebol, apesar de os mais Roxos Paulos torcedores desse Brasil encontrarem aqui uma epopeia futebolística para ler-se com cerveja ou café - você escolhe. Sabe aquela história? "Flamenguista roxo?" Ai, desculpem! Paulo é santista... Foi um lapso freudiano, como dizem por aí. Aliás, ele deveria chamar-se: Paulo Santos Roxo... Barja...
O meu enfoque é que, lendo essas linhas, eu descubro que há dois tipos de autores: o trágico, que insiste em negar a exuberância da vida por causa das paixões que decepcionam e o otimista, que retira das pedras a beleza e alegria, a força e a esperança. Eu fico com o segundo. Por isso, identifiquei-me com o autor e não só. Reencontrei-me, redescobri minha brasilidade adormecida a partir das perspectivas oferecidas aqui.
Foi muito construtivo pra mim, saber que agora, não só não somos dependentes do futebol para moldar nossa imagem diante do mundo, como também superamos tal dependência. E as crônicas deste livro são de um lirismo tão contagiante que, como podem perceber, o lirismo não é apenas crônico mas também epidêmico.
Eu fico muito contente em saber que o meu patriotismo vai além dos gramados (amo futebol e entendo pacas da arte, modéstia à parte), e poder confirmar com essas reflexões do livro, praticamente existenciais, humanistas e transcendentes que não estou sozinha nessa esperança e nesse otimismo brasileiro é consolador e significativo.
Como já dizia outro que partira dias atrás, sigamos sem desistir do Brasil! E isso está tão bem traduzido nessas linhas e entrelinhas. Irmanados na poesia, na literatura, no futebol e em tantas outras coisas que nos fazem um, entenderemos dentro em breve - e principalmente com a ajuda desse livro - que não somos mais o país do futebol mas podemos ser ainda o país da bola, se soubermos cabecear a "bola da vez".

Giselle Lourenço

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cora Coralina: Raízes de Aninha




Tantos se dizem apaixonados pela figura de Cora Coralina...
Eu era mais uma dessas que me dizia apaixonada pela velhinha goiana que escrevia poesias e fazia doces. Até aqui, havia lido uma biografia, algumas crônicas, alguns contos, várias ou muitas poesias, diversos documentários, os quais, inclusive, tratavam direto com a poetisa.
O que eu não poderia imaginar era que ela realmente voltaria, tal como prometera em seu epitáfio.

"A pedra de meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.
Eu voltarei...”
Cora Coralina

Não poderia eu imaginar que ela voltaria pelas mãos de um anjo, que possivelmente, ela mesma enviou. As mãos daquela que, dentre tantos e dentre poucos, também encontrou na figura da velhinha da casa velha, na aurora do cronos, na fortaleza encarnada, essas mãos que me dedicaram um livro... Um livro que encerra uma vida transformada, uma aura iluminada, uma em dez, uma em mil, uma em todas.

Dividiu as águas profundas, mansas e turbulentas de meu mar o livro “Cora Coralina: Raízes de Aninha”.

Não tenho crítica literária para fazer à referida obra e nem analiso seus autores criticamente. Não cabe... Porque não cabe mais em mim o transbordar de poesia em chão batido, o chão nosso de cada dia refrigerado de flores, rosas, ipês, borboletas...

Tive eu um encontro pessoal com Cora Coralina. É um transfigurar de seu corpo em palavras que encontraram o espelho dentro de mim. Encontrei-me com Cora. Conheci Cora. Vivi com Cora. Senti o cheiro de Cora. Perpassei as orações de Cora. Senti o calor e as rugas de suas mãos. Percebi seus dedos calejados e tortos entrelaçados aos meus. Dilatei meu coração. E de repente, foi um misto de transe e erupção vulcânica. Até meu corpo teve dor... Ela, realmente, voltou. E eu, realmente, a vi.

Entendo agora e até respondo a dúvida que pairava com os escritores desta obra sobre o “para quê” de mais uma biografia de Aninha. Porque, ainda que leias todas as biografias sobre Cora, qualquer uma delas poderá ser dispensada em virtude dessa. Em virtude das raízes que aqui, oferecem a seiva que nutria a velha, que nutria a jovem e que nutre o mundo. Essas raízes nos oferecem um encontro espiritual e carnal. Sinestesia extrapolada. Um mergulho nos ares correntes da casa velha, da velha, da ponte, do rio... Esse livro – Cora Coralina: Raízes de Aninha – é um manual sobre como ler Cora... Como ler suas poesias, sua vida, sua mensagem. Apresenta-nos Cora assim: olho-no-olho, mão-na-mão, raio-em-copa.

Não quero parecer uma herege ao universo cristão, portanto peço licença... Mas Raízes de Aninha tornou-se meu Evangelho. Nunca tão encarnado. Nunca tão frutificado em mim como agora. O cultivo das rosas em terra vermelha fez esparramar polens até meu coração. Sinto que dele, começam a nascer rosas... Nunca tive rosas no coração se não me esforçasse muito pra isso. Agora, elas brotam assim, com o mínimo cultivo.

Olho ao redor, vejo Cora. Tem um sopro aqui ao pé do ouvido... É Cora... Sua voz... Ela me fala o tempo todo. Vou tratar de vida corriqueira, fala Cora aqui pra mim. Vou parar para rezar, parece que ela me empresta seu coração e de presente, sua fé. Vou admirar-me da vida, da família que cresce, ela me empresta seu olhar... Não, não deixei de ser eu mesma. Não sofro crise existencial ou de identidade. Ela, o evangelhozinho simples da labuta, da humildade, da esperança e da força penetra aqui no meu pobre coração e me ensina coisas que já avançava o tempo de eu aprender.

Agora sim, eu entendo de Cora. Sinto-me sua filha. Mais uma... Isso foi o que o debulhar dessa espiga dourada intitulada “Cora Coralina: Raízes de Aninha” veio trazer ao milharal de minha vida. Digo sem pretensão, com humildade mas com certeza: sou doutora em Cora Coralina. Presente de anjo dá nisso... A obra está pronta a fazer mais doutores que se dispuserem em alma e tempo. Esse pleno entendimento não é mérito meu. É mérito dos outros filhos de Cora que, com esmero, a fizeram reviver nessas linhas de ouro. Obrigada: Clóvis Carvalho Britto & Rita Elisa Seda.

Dedicatória da autora Rita Elisa Seda (quem me presenteou com a obra)



Também eu quero chegar à minha casa velha da ponte...
Não sei que casa
Não sei quão velha
E não sei qual ponte



Casa Velha da Ponte em Goiás, onde viveu Cora Coralina.
Hoje, Museu Casa de Cora Coralina - Goiás.
Apenas sentir no findar de minha vida algo assim...
Viver valeu a pena
O tempo é meu amigo
E o chão é sim batido



Giselle Lourenço