quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os cinco tipos de risos

Que surpresas e luzes podem nos revelar a sabedoria monástica! 

Hoje, li por acaso um artigo que causou-me tanta admiração (um assunto que jamais imaginei que pudesse ser discorrido ou refletido) e ao final do texto, descobri que o autor era nada menos que Dom Bernardo Bonowitz, o Abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo no Paraná, um lugar que visitei duas vezes e que até hoje me traz maravilhosas lembranças e onde pude conhecer o próprio Dom Bernardo, quem me recebeu com alegria e simplicidade...

Diz a regra de São Bento que o décimo grau de humildade consiste em que o monge não seja pronto e fácil ao riso. Contudo, Dom Bernardo faz questão de explicar que a regra não exclui a realidade sorridente de um monge. Então, numa escala de um a cinco, Dom Bernardo explica quais seriam os tipos de risos, do mais indesejado até o riso ideal.

1- O riso sardônico: seria um tipo de riso de quem não se encanta por mais nada na vida e a enxerga como uma grande piada. Ri do belo, do nobre, do santo... É como se tivesse sofrido uma decepção em que não pôde suportar e não consegue mais dar crédito a nenhuma realidade, por mais humana ou caridosa que seja.

2- O riso zombeteiro: é o riso debochado. Quando alguém está a fazer o seu melhor e, humanamente, pode não atender os critérios mais refinados e recebe risos e zombaria em troca como se tivesse desempenhando um ridículo papel. Esse tipo de riso pode abrir feridas incuráveis na alma de seu alvo.

3- O riso escapista: é o riso de quem não lida bem com o peso e responsabilidade da vida adulta, de quem considera deveras séria a vida com responsabilidades, sente um fardo ao executar tarefas que lhe exigem o pensamento e a concentração e então, tem uma necessidade constante de se distrair. Dom Abade dá vários exemplos de distração, muito comuns na vida moderna. Um exemplo que eu mesma ouso citar e do qual ele não fala seria a necessidade que as pessoas têm hoje de rir com distrações como "reality shows" ou "stand ups", por exemplo.

4- O riso de comunhão: é o riso de quem partilha o mesmo ideal de vida e que saboreiam uma experiência comum. E para isso ele dá o exemplo de um casal apaixonado, que mesmo sem um motivo específico, pontual, riem apenas por estarem na presença um do outro, como se fosse um estado interior de sorriso que externiza no movimento muscular do sorriso. Do quarto em diante, já estamos no terreno do riso ideal.

5- O riso escatológico: o riso que riremos no fim dos tempos. E ele usa a realidade do "já" e do "ainda não" para ilustrar que, esperar o fim dos tempos não significa esperar cessar a vida terrena para desfrutar de um gozo celestial, pois esse riso ainda não irrompido em exultação eterna já começou desde que o "Logos" - o Filho de Deus quis rir conosco aqui na terra, e que irrompe não só na liturgia mas também na oração ou no simples afeto humano. 

Dom Abade termina num colóquio com São Bento, com a certeza de que o Santo, certamente, dera boas risadas com o assunto do texto. Ora, Dom Bernardo, se ele deu risada, foi a risada escatológica, que já comporta a risada de comunhão.
Foi bom demais ler essas suas palavras. Entender que há humildade e sabedoria até para entregar-se ao riso só podia mesmo ser coisa de monge. E coisa de monge é sempre coisa boa! Deus guarde a Trapa e os monges alegres que por lá conheci!

Giselle Lourenço

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre o livro: Lirismo Crônico

Foto: Paulo Roxo Barja
Se a ideia era um livro sobre futebol, papel cumprido! Eis aqui o diário de um jogador que esteve em campo em todos os jogos da Copa do Mundo! Enquanto seu coração jogava em campo fértil, seus pés faziam a melhor jogada para quem quisesse a bola. E por isso, não é apenas um livro sobre futebol, apesar de os mais Roxos Paulos torcedores desse Brasil encontrarem aqui uma epopeia futebolística para ler-se com cerveja ou café - você escolhe. Sabe aquela história? "Flamenguista roxo?" Ai, desculpem! Paulo é santista... Foi um lapso freudiano, como dizem por aí. Aliás, ele deveria chamar-se: Paulo Santos Roxo... Barja...
O meu enfoque é que, lendo essas linhas, eu descubro que há dois tipos de autores: o trágico, que insiste em negar a exuberância da vida por causa das paixões que decepcionam e o otimista, que retira das pedras a beleza e alegria, a força e a esperança. Eu fico com o segundo. Por isso, identifiquei-me com o autor e não só. Reencontrei-me, redescobri minha brasilidade adormecida a partir das perspectivas oferecidas aqui.
Foi muito construtivo pra mim, saber que agora, não só não somos dependentes do futebol para moldar nossa imagem diante do mundo, como também superamos tal dependência. E as crônicas deste livro são de um lirismo tão contagiante que, como podem perceber, o lirismo não é apenas crônico mas também epidêmico.
Eu fico muito contente em saber que o meu patriotismo vai além dos gramados (amo futebol e entendo pacas da arte, modéstia à parte), e poder confirmar com essas reflexões do livro, praticamente existenciais, humanistas e transcendentes que não estou sozinha nessa esperança e nesse otimismo brasileiro é consolador e significativo.
Como já dizia outro que partira dias atrás, sigamos sem desistir do Brasil! E isso está tão bem traduzido nessas linhas e entrelinhas. Irmanados na poesia, na literatura, no futebol e em tantas outras coisas que nos fazem um, entenderemos dentro em breve - e principalmente com a ajuda desse livro - que não somos mais o país do futebol mas podemos ser ainda o país da bola, se soubermos cabecear a "bola da vez".

Giselle Lourenço

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cora Coralina: Raízes de Aninha




Tantos se dizem apaixonados pela figura de Cora Coralina...
Eu era mais uma dessas que me dizia apaixonada pela velhinha goiana que escrevia poesias e fazia doces. Até aqui, havia lido uma biografia, algumas crônicas, alguns contos, várias ou muitas poesias, diversos documentários, os quais, inclusive, tratavam direto com a poetisa.
O que eu não poderia imaginar era que ela realmente voltaria, tal como prometera em seu epitáfio.

"A pedra de meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.
Eu voltarei...”
Cora Coralina

Não poderia eu imaginar que ela voltaria pelas mãos de um anjo, que possivelmente, ela mesma enviou. As mãos daquela que, dentre tantos e dentre poucos, também encontrou na figura da velhinha da casa velha, na aurora do cronos, na fortaleza encarnada, essas mãos que me dedicaram um livro... Um livro que encerra uma vida transformada, uma aura iluminada, uma em dez, uma em mil, uma em todas.

Dividiu as águas profundas, mansas e turbulentas de meu mar o livro “Cora Coralina: Raízes de Aninha”.

Não tenho crítica literária para fazer à referida obra e nem analiso seus autores criticamente. Não cabe... Porque não cabe mais em mim o transbordar de poesia em chão batido, o chão nosso de cada dia refrigerado de flores, rosas, ipês, borboletas...

Tive eu um encontro pessoal com Cora Coralina. É um transfigurar de seu corpo em palavras que encontraram o espelho dentro de mim. Encontrei-me com Cora. Conheci Cora. Vivi com Cora. Senti o cheiro de Cora. Perpassei as orações de Cora. Senti o calor e as rugas de suas mãos. Percebi seus dedos calejados e tortos entrelaçados aos meus. Dilatei meu coração. E de repente, foi um misto de transe e erupção vulcânica. Até meu corpo teve dor... Ela, realmente, voltou. E eu, realmente, a vi.

Entendo agora e até respondo a dúvida que pairava com os escritores desta obra sobre o “para quê” de mais uma biografia de Aninha. Porque, ainda que leias todas as biografias sobre Cora, qualquer uma delas poderá ser dispensada em virtude dessa. Em virtude das raízes que aqui, oferecem a seiva que nutria a velha, que nutria a jovem e que nutre o mundo. Essas raízes nos oferecem um encontro espiritual e carnal. Sinestesia extrapolada. Um mergulho nos ares correntes da casa velha, da velha, da ponte, do rio... Esse livro – Cora Coralina: Raízes de Aninha – é um manual sobre como ler Cora... Como ler suas poesias, sua vida, sua mensagem. Apresenta-nos Cora assim: olho-no-olho, mão-na-mão, raio-em-copa.

Não quero parecer uma herege ao universo cristão, portanto peço licença... Mas Raízes de Aninha tornou-se meu Evangelho. Nunca tão encarnado. Nunca tão frutificado em mim como agora. O cultivo das rosas em terra vermelha fez esparramar polens até meu coração. Sinto que dele, começam a nascer rosas... Nunca tive rosas no coração se não me esforçasse muito pra isso. Agora, elas brotam assim, com o mínimo cultivo.

Olho ao redor, vejo Cora. Tem um sopro aqui ao pé do ouvido... É Cora... Sua voz... Ela me fala o tempo todo. Vou tratar de vida corriqueira, fala Cora aqui pra mim. Vou parar para rezar, parece que ela me empresta seu coração e de presente, sua fé. Vou admirar-me da vida, da família que cresce, ela me empresta seu olhar... Não, não deixei de ser eu mesma. Não sofro crise existencial ou de identidade. Ela, o evangelhozinho simples da labuta, da humildade, da esperança e da força penetra aqui no meu pobre coração e me ensina coisas que já avançava o tempo de eu aprender.

Agora sim, eu entendo de Cora. Sinto-me sua filha. Mais uma... Isso foi o que o debulhar dessa espiga dourada intitulada “Cora Coralina: Raízes de Aninha” veio trazer ao milharal de minha vida. Digo sem pretensão, com humildade mas com certeza: sou doutora em Cora Coralina. Presente de anjo dá nisso... A obra está pronta a fazer mais doutores que se dispuserem em alma e tempo. Esse pleno entendimento não é mérito meu. É mérito dos outros filhos de Cora que, com esmero, a fizeram reviver nessas linhas de ouro. Obrigada: Clóvis Carvalho Britto & Rita Elisa Seda.

Dedicatória da autora Rita Elisa Seda (quem me presenteou com a obra)



Também eu quero chegar à minha casa velha da ponte...
Não sei que casa
Não sei quão velha
E não sei qual ponte



Casa Velha da Ponte em Goiás, onde viveu Cora Coralina.
Hoje, Museu Casa de Cora Coralina - Goiás.
Apenas sentir no findar de minha vida algo assim...
Viver valeu a pena
O tempo é meu amigo
E o chão é sim batido



Giselle Lourenço

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Coisas de São José (com carinho à cidade de minha filha)

Coisas de São José (com carinho à cidade de minha filha).
Ainda sobre o caso "Estacionamento de Hospital". 

Reza a lenda por aqui que a população, tal qual Odorico, anda com a alma lavada e encharcada de revolta. Coisas de um tal Hospital-Maternidade de freiras que resolveu cobrar seu pedágio para os que precisam, na doença, seguir por suas estradas celestiais e seus corredores paradisíacos. 

Se você passa na porta, lá avista, orgulhosa, a plaquinha de tarifas que relacionam os valores com seus períodos. Essa lenda continua rezando por aqui. Eu queria mesmo era que as freiras rezassem também! 

Os mais piedosos que me perdoem, não abri fogo contra sua denominação. Apenas sou contra denominação que comunga com a dominação. Tenho muito respeito pelo hábito, desde que ele, realmente, faça o monge. E se você pensa, ingenuamente, que ofereço riscos à hombridade instituída, Jesus, aquele que era o Cristo, não seria tão polido como eu sou.

Soube da lenda que, em horas de missa, o sujeito pode entrar sem pagar, afinal, quem vai à missa é mais santo que o doente moribundo. É mais nobre que o acompanhante que pernoita por lá tendo acolhido a mensagem "toda vez que cuidaste do doente, a mim o fizeste". Ah, nem me peçam a citação de capítulo e versículo pois não cultivo a pregação querigmatica.
Cá estou esperando, pois seguiu correspondência minha à cidade de Roma. Desinformada é coisa que não sou. Dou sorte... Certa vez, disse-me uma freira desse lugar toda piedosa, pomposa e orgulhosa: "Não somos de direito diocesano, somos de direito pontifício." Ora, bom então. Minha reclamação tem como destino a província do mundo. Estou aqui esperando... Mas dei ação pra revolta. Fui pedir satisfação...
Fico apenas me perguntado: Como é que se prova ter ido à missa para não se pagar o tributo? Será que é só dizer as palavras do Cristo: "Não façais um comércio na casa de meu Pai!"? Isso provaria a piedade de alguém?

Texto dedicado à minha madrinha Cora Coralina
Giselle Lourenço

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pensando o Tempo

Ando pensativa sobre o tempo...
Sinto saudade de um tempo que nem bem toquei...
Como é que se chama a saudade daquilo que nunca lhe pertenceu? Alguns diriam que é a ânsia pelo eterno. Não sei. O tempo é um bordado lindo que, se visto pelo avesso, deixa entrever arestas e confusões.
Confusões sobre o tempo faz a gente no tempo de hoje. Acha que ele vai mais depressa. Acha que ele é senhor de tudo. A gente acha muito sobre o tempo, só não acha mesmo o tempo. Será?
Sinto falta de quando, para almoçar com o outro, não precisava telefonar. Quando muito, chegavam cedo para o fim de somar as mãos do fogão para a mesa ou completar a parte do açougue. E que coisa é essa de ter de ligar duas semanas antes pra avisar que te esperem para o café? Nesses momentos, acharia bom a não-invenção do telefone. Queria saber qual seria a desculpa.
Sinto falta de quando os potes de plástico (que não eram Tuppeware) iam e vinham numa procissão de oferendas da criatura para a criatura. Eu me lembro que eles iam no domingo cheios de canjica e voltavam por volta da quarta-feira cheios de empadas. Na semana seguinte, era a vez dos vizinhos das três casas abaixo. Em um mês, via-se a procissão feita pela rua inteira. Era a fração do pão na fração dos dias. Nunca mais acompanhei essa procissão. No polo onde vivo, as procissões não levam muito pão e nem movem muito a vida. Não sei se essas procissões ficaram remanescentes em algum paraíso perdido. Quem me dirá?
Sinto falta de quando as mães levavam seus filhos pra rua, sentavam-se à beira do meio-fio (era assim que se tinha por nome a "guia" de calçada na minha terra), e ali, as crianças eram crianças de pés descalços e .amizade construída sobre os momentos da vida em que não se precisava fingir nada. Hoje em dia, as mães não querem levar os filhos pra rua porque é lugar de desocupado. Porque precisam limpar a casa. As mulheres limpam tanto suas casas aqui no meu polo que parece até que Deus está vindo visitar... E quem vem? Muitas vezes, ninguém mesmo. Limpam para não receberem ninguém... Trancam-se lá os membros da família e respiram juntos o odor da lavanda e do isolamento, cada um no seu canto. É assim que a vida ensina hoje.
O isolamento é primo do individualismo. Individualidade é coisa rara por aqui. Mas em nome dela, as pessoas se isolam umas das outras, reivindicando, para si, esse direito. Elas atingem o individualismo, que é primo do egoísmo. E de repente, passam a repetir comportamentos e pensamentos massivos. Então posso repetir: individualidade é coisa rara por aqui.
Arrisco dizer que o individualismo é o mal deste século e o pai dos males psíquicos que cortam nossa aurora. Parece que até casa grande e senzala tinham mais comunhão. O que acontece com os outros que continuam apenas sendo os outros? Um alvoroço de gente em períodos de entrada e saída de trabalho não pode significar contato ou conexão. Aliás, o homem nunca esteve tão desconectado, apesar das conexões de banda larga. E ainda há aquela velha desculpinha: "Sabe como é a correria, né? Os dias estão numa correria só! ". Bom, pode até ser... Mas daí a usar a falta de tempo como condição existencial mais sublime que alguém possa alcançar é um erro mortal e um pecado que te excomunga da vida. E já notaram como tem gente que profere com orgulho a sua falta de tempo?
E por fim, nem é o muito falar que faz comunhão de vidas... O homem nunca usou tanto as palavras. E nunca delas entendeu tão pouco. Quem sente falta das mesmas coisas que eu, tende a usar menos as palavras, ou aventura-se a nelas encontrar repouso usando a tecla, a tinta ou a pena.
Giselle Lourenço

sábado, 23 de junho de 2012

Interpretação de textos

                                                                                                                Redação de Giselle Lourenço

Este sábado, foi dia de atividades de interpretação de textos na oficina do Curta Sopa de Letras. No entanto, não fizemos interpretações metódicas como as dos moldes predominantes em ambiente escolar. Como trabalhamos com o Interacionismo, resolvemos nos aventurar a interpretações de textos poéticos. E aí, obviamente, interpretar poesia resulta em maior liberdade de pensamento e criação; a música é tocada no ritmo da subjetividade de cada um, pois sabemos que não pode haver uma única interpretação para uma poesia.
Hoje, sentimos e ouvimos a música de Milton Nascimento - Voa Bicho, e vejam que belíssima interpretação surgiu a partir dos participantes da oficina... E logo abaixo, vocês poderão ouvir a música no vídeo montado em homenagem à turma do CPH Dom Oscar Romero.
Ao final da atividade de interpretação, os participantes produziram uma poesia concreta, com versos que falam a respeito do tema em questão em formato de um pássaro. Parabéns, pessoal!



Voa Bicho

 

Milton Nascimento

 

Andorinha voou, voou, Fez um ninho no meu chapéu, E um buraco bem no meio do céu
A andorinha vai além, “voou, voou”, é um ser livre, vai ao longe. E porque vai ao longe, traz novidades e experiências de liberdade, por isso, ao fazer o ninho no meu chapéu, ela incute uma ideia, traz uma mensagem que se estabelece em mim, traz um sonho que eu compro, pois estar no meu chapéu significa que eu permiti que a ideia permanecesse em mim e que eu abracei este ideal. O buraco bem no meio do céu é algo manifestado fortemente em minha vida. Nas Sagradas Escrituras, sempre que há essa alegoria, essa figura que diz que o céu se abre, se rasga, enfim, é porque uma grande epifania aconteceu, e são as epifanias que marcam a nossa vida e se tornam divisores de águas para nós.

E lá vou eu como passarinho, Sem destino nem sensatez, Sem dinheiro nem pra um pastel chinês.
Quando vou como um passarinho, é porque a situação do encontro proporcionou que um pássaro libertasse o outro. O encontro com o outro pode ser muito libertador. E de repente, sem sensatez, nos despimos de cálculos e métodos para alçar voos que exigem mais coragem, mais paixão e mais impulsos. Somente uma andorinha livre, alguém que experimentou as perspectivas para além do mundo ao redor é que pode nos causar esse impacto, essa vontade de fazer descobertas e de se lançar. Tudo acontece tendo como ponto de partida o encontro. E quando me despojo de todas as preocupações desnecessárias é que consigo ter fôlego para ir adiante. Se estou despojado, sei que a cada dia bastará o seu cuidado. Sequer o pastel chinês é uma preocupação; esse alimento básico que pode ser comprado a baixo custo e que mantém a fome longe por um bom tempo, deixa de ser uma preocupação para o encontro com a liberdade.

A andorinha voou, voou, Fez um ninho na minha mão, E um buraco bem no meu coração
Assim como o ninho do chapéu representa a minha aceitação e apropriação da ideia que em mim foi incutida pela andorinha, o ninho em minha mão significa que além da ideia, a andorinha me deixa algo concreto nas mãos, uma ferramenta que me propicia a realização de um trabalho. Ela me traz as ideias, mas também me oferece algo concreto para a execução de um trabalho e não me deixa apenas a vislumbrar o céu de maneira abstrata. E se há um buraco no meu coração, é porque a andorinha me faz perceber que esse coração jamais estará completo enquanto bater. O buraco é o que move meu coração a dar passos em direção ao que irá completá-lo, mas é uma jornada interminável nesta terra.

E lá vou eu como um passarinho, Como um bicho que sai do ninho, Sem vacilo nem dor na minha vez
Ao deixar o ninho, sempre há dor, é tarefa difícil. Mas não há vacilo e nem dor na minha vez. A coragem e a força trazidas pela andorinha conduzem essa transposição sem dores, sem traumas; mais uma vez os traumas são minimizados pela beleza do encontro.

A andorinha voa veloz, Voa mais do que minha voz, Andorinha faz a canção, Que eu não fiz
A andorinha tem a força e a competência que eu não tenho. O que falta em mim é completado por ela. Aquilo que eu não sou capaz de fazer, ela faz com facilidade.

Andorinha voa feliz, Tem mais força que minha mão, Mas sozinha não faz verão.
No entanto, a andorinha não pode viver sem o encontro. Também ela possui um buraco em seu coração e sabe que sozinha não pode ganhar o céu. Ela voa para o encontro, voa em busca das metades de suas asas. O homem é um ser coletivo, sozinho, jamais conseguirá construir trabalhos de estruturas sólidas e que sejam perenes.

A andorinha voou, voou
Fez um ninho na minha mão
E um buraco bem no meu coração
E lá vou eu como um passarinho
Como um bicho que sai do ninho
Sem vacilo nem dor na minha vez.
Muitos pássaros cometeram erros tentando ser andorinhas solitárias. Vamos juntos, a partir do encontro com o outro, construir a nossa história e a história da nova humanidade!


sábado, 9 de junho de 2012

Projeto Curta Sopa de Letras

Iniciou-se neste sábado, 9 de junho, a Oficina de Curta-Metragem do Projeto Curta Sopa de Letras no Centro de Promoção Humana Dom Oscar Romero, da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A maioria dos participantes são membros da PASCOM e o grupo já demonstra grande motivação para as propostas do Projeto.
Atentos, os participantes da oficina assistiam uma apresentação de um texto pelas colaboradoras do projeto que trabalham com teatro.


O Projeto foi idealizado pelos professores Paulo Henrique Pereira (responsável pelo processo de roteirização e filmagem) e Giselle Lourenço (responsável pelo módulo de produção de textos) e pode ser ministrado em qualquer espaço físico que comporte uma turma de no máximo 20 pessoas.
No primeiro dia da oficina do CPH Dom Oscar Romero, a escritora paraisopolitana Rosângela Fonseca falou aos participantes sobre como acontece seu processo de escrita e também contou como descobriu-se com o dom de escrever histórias e poesias.
Rosângela Fonseca falando sobre seu processo de produção de textos.
Estamos ansiosos em saber que histórias serão produzidas por um  grupo tão engajado como esse. Para nós, será um prazer trabalhar com essa turma. Inauguramos bem o ano de 2012!
Entre tantos outros textos, exploramos a poesia de Drummont e todos se comprometeram em fazer da escrita a pedra preciosa do caminho.


Uma pequena explicação sobre o trabalho:
Trabalhamos o processo de produção de textos através de noções redacionais, exploração da Língua Portuguesa e de gêneros textuais utilizando a sequência didática proposta pela Escola de Genebra - que visando repensar algumas práticas pedagógicas de professores de língua materna, defende a didática da diversificação e foge aos moldes tradicionais puramente gramaticais para proporcionar a socialização dos falantes de mesma língua materna - Interacionismo Sociodiscursivo. Após o processo de produção textual, os participantes são convidados a transformar o texto em roteiro para filmagem em linguagem cinematográfica. O último módulo é a produção do curta-metragem com o envolvimento de todos os participantes no processo de criação de vídeos. Conheça melhor os passos do trabalho e leia o release dos idealizadores em nosso perfil do Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100003741611292