sexta-feira, 17 de julho de 2015

Perguntas e Respostas

Com Ludmila Saharovsky (poetisa, cronista,
dramaturga e autora de Tempo Submerso)

Ando pensando sobre os caminhos aos quais minhas escolhas têm me levado. 
Indiscutivelmente, é significativo o número de literatos que, de alguma forma, convivem comigo. E como é natural de minha personalidade, tendo sempre a perguntar o porquê disso, uma vez que não sou uma escritora. Perguntar é sempre bom. Aqui, uma pausa para contemplar pessoas que me inspiram. Viver rodeada de gente criativa ilumina os escombros que, às vezes, saltam à nossa frente. 

Volto à pergunta. Perguntar deveria ser um costume sincero. Nessas fórmulas de exames de consciência que, às vezes, recebemos por aí, deveria conter uma sessão só de perguntas. 
Perguntar é a mais sincera maneira de examinar-se. E as respostas? Quem pergunta precisa de respostas, não é? 

Não! Nem sempre. Muitas vezes, basta a pergunta. Em alguns casos, a pergunta é a melhor resposta que alguém pode receber. 

E é por isso que eu ando perguntando, dentro desse meu contexto, "qual é a parte que me cabe deste latifúndio?".

Ando cansada das respostas. Hoje, muita gente tem resposta pra tudo e está todo mundo certo sobre tudo. Essa enxurrada de respostas retira da vida o que ela nos oferece de mais sublime: o maravilhamento diante da descoberta. Quem descobre, nem sempre descobre por que alguém respondeu. Aliás, as maiores descobertas vieram de um processo entre a dúvida, o caminho e a luz no exato momento. Dificilmente, uma grande descoberta vem através de filtros de milhares de respostas. 

Seria muito bom se perguntássemos mais do que respondêssemos. A maior ignorância da vida não é ter muitas perguntas e sim muitas e imutáveis respostas. Estamos cheios de especialistas por aqui. E tenho que, diariamente, ouvir e tropeçar nas respostas de todos os "especialistas" espalhados por essa terra de Santa Cruz, e também por essa terra de ninguém que é a internet. 

Nessas horas, lamento o silêncio dos bons. Porque, enquanto os "especialistas" estão regurgitando suas milhares de respostas, os bons estão aceitando essas respostas sem fazer nenhuma pergunta. É como diz  uma história de tradição católica que, em 23 de dezembro de 428, um arcebispo de Constantinopla teria dito que a Virgem Maria dera à luz pela via auditiva. Tanto é que, em Recife, a Igreja Madre de Deus, dando vazão à lenda, colocou um painel com essa gravura na arcada direita do altar principal. Percebe-se o Espírito Santo caindo sobre a orelha esquerda da Virgem, fecundando-a. E é daí que vem, então, a expressão "emprenhar-se pelos ouvidos". E tem sido assim, 16 séculos passados, muita gente continua aceitando, sem questionamentos, algumas histórias que são contadas por aí.

Eu retomo minha pergunta e convido-te a fazer a mesma: "qual a parte que me cabe neste latifúndio?".

Aos que me inspiram, apenas uma pergunta: o que pode ser melhor do que gente que nos faz perguntar?

Giselle Lourenço

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O que tem a dizer uma mulher de 36?


Aprendi que, quando se tem história e experiência, não importa a idade. Você não precisa chegar aos 60 para dizer que já viveu muita coisa e que conhece um pouco da vida e das pessoas.
Descobri que é melhor estar entre pessoas inteligentes do que entre pessoas ricas, e que as pessoas ricas só valerão a pena se também possuírem alguma riqueza de espírito.
Entendi que só dá pra falar em amor se você já viu a Cruz.
Compreendi que não importa ter acumulado muitas riquezas aos 30 anos. Importa ter encontrado no caminho quem te ame e ter visto o mundo e suas contradições para que eu perceba o real sentido da vida.
Percebi que, a máxima bíblica de que não se pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo é muito verdadeira, embora muitos sirvam os dois sob o pretexto de que com dinheiro, você serve melhor à Deus.
Enxerguei a importância de cuidar do próprio corpo, principalmente como alguém que acredita em Deus. Porque não há falsidade maior do que a sentença popular platônica de que você deve cuidar apenas da alma já que o corpo vai pra debaixo da terra. Afinal, se você quer viver com coerência, pensar nos seus é tentar não morrer antes da idade por uma infeliz artéria entupida por quilos de gordura ou por um ignorante tumor de origem "químio-alimentícia" (acho que esse termo fui eu que inventei). E se, depois de todo cuidado, ainda sim, a Irmã- Morte bater à sua porta, saber que não é vontade de Deus. E que, inclusive, nenhuma catástrofe de origem humana ou natural é vontade de Deus, porque, ao contrário do que dizem os xiitas à nossa volta, Deus deu-nos as potências de inteligência e de vontade para usarmos ao invés de transferir pra Ele toda a responsabilidade sobre nossas vidas.
Ando notando que ser mãe após os trinta tem lá seus encantos, embora o corpo padeça um pouco, e reitero aqui, a necessidade de cuidar do corpo.
Vejo que hipocrisia é coisa que não sai de moda e que, portanto, tenho que tomar cuidado com ela, já que é extremamente contagiosa e, às vezes, chega a ser chique. E falando em hipocrisia, não há nada que a defina melhor do que "aquilo que você quer impor aos outros em discursos mas que não está presente em sua vida em ato", como, por exemplo, ler a passagem do jovem rico que precisa vender tudo pra seguir Jesus no ambão da Missa enquanto a lei da vantagem e da competitividade precisa te levar a ser melhor e mais abastado.
E já que mencionei sobre ser chique, tenho descoberto que chique mesmo é ter sempre uma palavra simples para dizer tudo, ao invés de gastar uma Barsa inteira de preciosismos para um discurso vazio. E falando em simples, ando estabelecendo uma relação inversamente proporcional entre o que é simples e o que é simplório. Infelizmente, as mentes mais pedantes confundem as duas coisas.
Preconceito deveria ser coisa ultrapassada e fora de moda, mas está aqui, ainda existe; é mentira dizer que foi superado; me rodeia o tempo todo e eu tento não deixá-lo entrar. Espero conseguir.
Ler muito não significa adquirir sabedoria. E ler tudo pode, inclusive, te deixar burro. É preciso ler o suficiente. Quem lê tudo será um eterno repetidor de ideias alheias e nunca terá tempo para ficar ruminando os próprios pensamentos. Muitos eruditos são burros - já dizia Schopenhauer.
O casamento pode ser uma das melhores maneiras de se alcançar a liberdade. Isso sim é para os bons entendedores.
Em suma,  é bom fazer 36, pensar como alguém de 36 e ter um corpo de 36. Nunca pretendi ter 36 com corpo de 20 e cabeça de 15 e a gratidão é o que mais envolve minh'alma nesse momento, porque percebo esses 36 alcançados com graça, paz e inquietações saudáveis. Viva a vida e o momento presente!

Giselle Lourenço

sexta-feira, 8 de maio de 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Neste sábado, além das temáticas já programadas no cartaz abaixo, falarei também sobre o que diria Cora Coralina aos Professores e repressores da educação no Brasil no contexto atual, considerando os últimos e lamentáveis acontecimentos em Curitiba no confronto entre PM e docentes. 

Abraços coralineanos,

Giselle Lourenço


Pra não pensar bobagem...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Chá com Cora no Bola de Meia

No próximo sábado, dia 7 de fevereiro de 2015, começamos um sonho de tempos. Um grupo de encontros para reflexões a partir da vida e obras de Cora Coralina, principalmente, para olhar com mais atenção para tudo que ela foi além de doceira e poetisa. O que fez Cora Coralina antes de seu renome como poetisa de Goiás? Quem foi, quem é essa mulher-monumento?
O grupo prevê encontros durante todo o primeiro semestre de 2015, sempre aos primeiros sábados de cada mês.
A responsável por esta página é professora de Literatura e estudiosa da vida e obras de Cora Coralina e mediará os encontros.

Cuidar da alma e jogar o corpo fora?

É muito lamentável o ponto onde chegamos...
Assistindo a um documentário sobre hábitos alimentares modernos e sua relação com as doenças, fiquei muito triste... Parece irreversível, pois parece que as pessoas realmente não se importam! Fiquei chocada ao saber de uma cozinheira da rede estadual que a única coisa que se cozinha na escola é o arroz. Como vem o restante? Enlatado! O feijão? Enlatado! A carne? Enlatada! Os "legumes"? Enlatados! Não temos dó de nossos filhos? Vocês acham que o culpado é o Estado? Nós temos o maior poder concentrado em nossas mãos: o poder de consumir! E somos nós que escolhemos o pior para o consumo, nós é que patrocinamos essa cultura de morte alimentícia!
Nas escolas, o buraco é mais embaixo: uma caixinha de suco é uma moeda bem mais valiosa que uma fruta, uma banana, por exemplo. E nenhuma criança quer sentir-se inferiorizada economicamente, tem vergonha de ter frutas no lanche. Existe uma hierarquia de valores, você vale o que tem desde a escola. Se você tem Doritos e suco de caixinha Del Valle, você é melhor que aquele que leva uma banana e uma maçã. Há casos de crianças que não tem alternativas, ou por conta da situação econômica mesmo ou porque tem prescrições médicas sobre alimentação. Resultado: trancam-se no banheiro para comer aquilo que precisam e não serem alvos de deboche dos colegas. Vivemos em um mundo onde as crianças aprendem que comer fruta é vergonhoso! E todo esse discurso de pais cuidadosos, olhar mais complacente para a infância e o desenvolvimento do ser? Tudo balela se não olharmos com cuidado para o que nossas crianças comem! Os professores de biologia vivem o eterno dilema: como podem explorar a questão dos alimentos em sala de aula e suas propriedades nutritivas se ao saírem da sala de aula, as crianças não podem adquirir esses alimentos na cantina da escola, porque na cantina só tem: salgadinho, Bis, Nutella, Rufflles... Que complacência e espiritualidade estamos tendo para olhar para a criança? Eu lhes respondo: NENHUMA! Os cientistas falam muito sobre a obesidade infantil e que de 5 crianças obesas, 4 continuarão obesos quando adultos. Eu nem me detenho na questão da obesidade... O peso pra mim, fica em segundo plano quando penso em outras implicações de saúde corporal e até bucal. Porque há aqueles que não têm sobrepeso mas que, ainda sim, apresentam problemas alarmantes de saúde, principalmente, nas dosagens químicas do sangue, como colesterol, triglicerídeos e glicose. 
O que acontece conosco? Não fazemos mais refeições juntos. Não cozinhamos a própria comida... Tem que ser tudo fast... Porque temos que ter comida rápida. Mas comer é um ato de amor, de socialização... Não temos que comer rápido... Ah, sim, as mães não têm tempo de cozinhar porque estão ocupadas em seus trabalhos... E aí você confia a saúde de seu filho em um pacote de Dorytos? Parabéns! Ter um filho não é só jogar ele pra fora... O cuidado na primeira infância é apenas o começo... Eu não sou a melhor mãe, não sou o exemplo impecável e nada disso. Mas tento melhorar tudo que posso para o bem daquele ser com quem me comprometi pelo resto da vida a partir do momento em que permiti que ela habitasse minhas entranhas... E não vou parar o serviço no meio do caminho... Por aqui, nem ligo do que falam sobre meu modo de maternar! Sou chata mesmo! Não deixo comer mesmo! Não tenho em casa mesmo! Estimulo o melhor que posso no quesito alimentação. Às vezes, as pessoas não entendem e se escandalizam... Mas esse é um cuidado que não é compreendido justamente porque invertemos os valores. Você é uma mãe legal se você deixa seu filho comer de tudo sem frescura; se você regula a alimentação pensando no melhor para ele, você é fresca, neurótica e tudo o mais que te rotulam. Não, queridos... Nisso, eu sei quem sou e sei cuidar da minha família! Torço para que os outros enxerguem a inversão em que vivemos e que quando enxergarem, não seja tarde...
Convido vocês, mamães, papais, filhos, a cozinharem mais vezes em casa, fazerem pratos caseiros juntos. E vejam que nem falo de cardápios naturebas! Falo apenas de uma alimentação consciente... Nada de tudo pronto ou enlatado... Cozinhar é uma arte, talvez, a mais bela de todas, porque é a que dá sustento para as outras artes. Desnutrido, nenhum artista será criativo. Tenho amigos que adoram esses lanches dessas franquias que nem gosto de escrever o nome.. desses que vêm com hambúrguer, batata frita, brinquedo, refrigerante...Com respeito aos que adoram, manifesto minha verdadeira repulsa por tudo isso! Aqui não tem essa de levar para comer e ganhar brinquedinho... Não acho bonito, desculpem... Da mesma forma que alguns pais estão preocupados com a exposição infantil à publicidade, devemos nos preocupar com os traficantes de fast foods! Um verdadeiro vício pavoroso de nossos tempos! Vamos reunir as famílias em volta da mesa de casa! Vamos procurar alternativas que nos proporcionam uma melhor qualidade daquilo que ingerimos. Você é o que você come! Não queira ser apenas dois hambúrgueres, alface, queijo e molho especial! Seja um viçoso doce de figo feito no tacho, um empadão de frango caipira com folhas frescas e temperos naturais! Vamos enaltecer o processo alimentar selecionando com mais inteligência nosso alimento. E não me venha com papo de alimento pra alma aos domingos se você não cuida do corpo que te foi dado!
Cuidar da alma e jogar o corpo fora? Ora, até Cristo quis o corpo dele de volta...